6 coisas que não me contaram sobre viagens missionárias de curto prazo

28 de novembro de 2017     0

Por Rachel Sousa para Ultimato Jovem

Sempre digo que todo cristão deveria fazer uma viagem missionária de curto prazo pelo menos uma vez na vida. É um engano pensar que missão é uma exclusividade daqueles que tem um “chamado” especial, já que todos são chamados. A ordem de Jesus foi para todos os seus seguidores, para que, enquanto seguem na jornada da vida, preguem o Evangelho e façam discípulos. O chamado é universal, a vocação é pessoal.

Certamente alguns são vocacionados a uma vida dedicada inteiramente ao que chamamos de “missões”; vocacionados especificamente para a pregação do Evangelho e o discipulado das nações. Mas o envolvimento com a proclamação do Evangelho é tarefa para a Igreja de Cristo e, portanto, para todos os cristãos.

E aí entra a importância das viagens missionárias de curto prazo. Nem sempre dispomos de semanas ou meses, mas até mesmo viagens de alguns dias podem despertar nosso coração e gerar bons frutos. Aqui vão seis pontos a serem considerados nesse contexto:

1 – Cuidado com a autopromoção

Em minhas viagens, especialmente no tempo que passei morando em bases missionárias, conheci muitas equipes em viagens de curto prazo. E nelas encontrei de tudo um pouco.

Algumas pessoas infelizmente participam de viagens de curto prazo com o intuito de explorar a realidade de pobreza e sofrimento, para se autopromover em suas igrejas, ou ainda para aliviar a consciência, na ideia de que “fez seu papel”.

Viagens de curto prazo não são para isso! São incríveis oportunidades de, em primeiro lugar, cooperar com aquilo que Deus está fazendo através de seus servos em favor de pessoas que ainda não conhecem o evangelho. Somos cooperadores de Deus, coadjuvantes em seu plano eterno para o homem.

2 – É um tempo de aprendizado intensivo

Viagens de curto prazo são uma ferramenta de Deus para nos ensinar e alinhar nosso coração. Já falei essa frase e também já ouvi dezenas de pessoas dizendo a mesma coisa: “Fui para a viagem acreditando que ia dar algo e acabei recebendo muito mais”.

Nessas viagens somos despertados de nossa maneira de viver, muitas vezes emaranhada em egoísmo e individualismo, centrada em necessidades temporárias. Lembro-me de que quando voltei da minha primeira viagem, sentei e comecei a chorar ao olhar para o meu armário, me perguntando por que precisava de tantas peças de roupa.

Viagens de curto prazo são mecanismos divinos de transformação do nosso caráter, nos revelando nossa dificuldade de trabalhar em equipe, de servir de todo coração, de abrir mão dos nossos direitos em favor do nosso irmão (acredite, os maiores conflitos não vem de choques com a comunidade, mas com os membros da própria equipe e com os missionários locais).

3 – Nada de agir na emoção

A experiência das viagens de curto prazo pode ser uma porta para a missão em tempo integral. Assim como aconteceu comigo, ao experimentarem parte da realidade do campo missionário muitas pessoas são profundamente impactadas com a responsabilidade da pregação do evangelho e veem-se chamadas a responder à ordem de Cristo. Mas é preciso tomar cuidado com as decisões baseadas em pura emoção. Já vi pessoas retornando para o campo depois de uma viagem de curto prazo e, em pouco tempo, não aguentando a pressão.

Se você foi despertado em uma viagem missionária, é hora de investir tempo em oração, colocando o coração diante de Deus até que você receba orientação sobre os próximos passos. Às vezes isso significará investir em estudo e preparo, investimento e suporte financeiro. Pra mim, significou seis meses no escritório, um ano servindo a igreja local e fazendo algumas outras pequenas viagens, dois anos servindo em duas bases missionárias no Nordeste em tempo integral, para ao final desse período retornar para o atual tempo de estudos teológicos e missiológicos, até que eu seja reenviada para um longo prazo no campo missionário.

4 – Cuidado com as promessas

Muitos voluntários em viagens missionárias de curto prazo trocam contatos com a comunidade local e prometem doações e recursos. Outros prometem que voltarão. E, infelizmente, a maioria se esquece de suas promessas uma semana depois de retornar para sua realidade. Já ouvi de moradores locais sobre a decepção com pessoas que nunca sequer responderam a uma mensagem de texto enviada.

Precisamos ser conscientes de que somos representantes de Cristo. Atitudes como essa podem ferir pessoas que começaram a ouvir sobre o evangelho e torná-las indiferentes aos esforços dos missionários locais.

5 – Impacto evangelístico x Projeto de longo prazo

Já começo dizendo que não sou contra impactos evangelísticos, de forma alguma! Porém, particularmente, não sou incentivadora de viagens focadas em impacto evangelístico em locais que ainda não tenham uma igreja local sendo plantada ou um missionário trabalhando em um projeto de longo prazo, ou, ainda, se a igreja enviadora não está assumindo a responsabilidade de iniciar um projeto após o impacto no local. Explico o motivo.

Temos a responsabilidade, como Igreja, não apenas de pregar a todas as nações, mas de fazer discípulos. Isso significa cuidar, acompanhar, ensinar. E isso leva tempo. Impactos evangelísticos rendem frutos maravilhosos para o Reino, como curas, libertação e conversão. Contudo, se não houver quem cuide dessas pessoas, o risco de sincretismo é enorme.

Por isso incentivo que igrejas locais invistam esforços de viagens missionárias em locais que já dispõem de missionários em tempo integral, especialmente em projetos em fase inicial. Dessa forma, saberemos que pessoas alcançadas durante o impacto evangelístico continuarão a ser cuidadas e ensinadas depois que a equipe for embora.

6 – Esteja disposto a trabalhar em equipe

Tenha uma mentalidade de serviço em relação à sua equipe e, especialmente, aos missionários locais. Conflitos interpessoais no contexto missionário são mais do que comuns. Seja pelo choque cultural, seja pelas dificuldades pessoais de interação, a verdade é que em toda viagem teremos situações de conflito.

Em uma das minhas primeiras viagens, estava servindo com uma equipe de coreanos de primeira geração, e eu era a única brasileira e a mais jovem do time. Embora eu seja de uma igreja coreana e já estivesse habituada a algumas diferenças no trato pessoal, nada me preparou para aquela viagem.

Um ano antes eu tinha liderado uma equipe para o sertão do Piauí, então eu acreditava piamente que já sabia como fazer esse tipo de viagem. Mas experimentei de tudo um pouco. A dificuldade de comunicação (apenas duas pessoas conseguiam traduzir para mim, pois toda a comunicação era em coreano) me levou a cometer diversos erros, porque não havia recebido os avisos de forma correta, o que levou a má interpretação por parte da liderança, que acreditou que eu estava desafiando-os.

Fui severamente repreendida na frente de todos os outros membros da equipe (líderes, não façam isso, por favor), o que me levou a tentar argumentar e explicar o meu ponto de vista sobre o que estava acontecendo. Contudo, na cultura coreana, argumentar diante de uma repreensão é tão ofensivo quanto gritar e bater em alguém. Imaginem a situação!

Na época, meu pensamento era o de que estava sendo tolhida em tudo aquilo que acreditava que carregava como talento no campo missionário. Não tinha liberdade para interagir com as pessoas da base e seus projetos, não podia ministrar livremente nas atividades que realizámos.

Graças a Deus tive um pastor coreano que me abraçou como filha e que começou a me ensinar como sua cultura interpretava determinadas atitudes e me direcionando em relação a como eles esperavam que eu me comportasse. A viagem terminou bem, mas levei algum tempo para me recuperar e entender o que Deus queria me ensinar nesse tempo. Hoje conto sobre ela com a certeza de que foi fundamental para me quebrar e me ensinar preciosidades sobre meu caráter e sobre missões que, de outra forma, eu talvez não aprendesse.

Algo essencial e geralmente esquecido pelas equipes de viagens de curto prazo é o fato de que estamos servindo um trabalho em andamento. Valorizem os missionários locais. Perguntem qual é a melhor forma de executar os planos. Ouçam informações sobre a comunidade local, suas preferências, seu histórico. Seja humilde, assuma uma postura de aprendiz e não de professor, de receptor e não apenas de doador. Permita que esse tempo seja uma experiência profunda e transformadora com Deus.

UM RECADO FINAL

Acredito em uma grande colheita, pois os campos estão brancos. Acredito em uma Igreja Gloriosa que se levanta entre as nações e proclama audaciosamente o evangelho de Cristo Jesus. Acredito em jovens e velhos respondendo à pergunta que tem ecoado por gerações: a quem enviarei?

Minha oração é pelo despertamento dos últimos dias. Por um derramar do Espírito sobre a Igreja, para que levantem os olhos de seus próprios umbigos e vejam os campos brancos. Homens e mulheres que não amaram suas próprias vidas mais do que a Glória de Deus entre os povos.

Permita-se ser tocado e transformado por aquilo que Deus está fazendo entre as nações. Disponha-se a ser um cooperador de Deus!

Rachel Sousa, 29 anos. Natural de Brasília, mora em São Paulo há 10 anos e congrega na Igreja Missionária Oriental de São Paulo (IMOSP). Cursa o mestrado em Missões no Seminário Teológico Servos de Cristo.

TEXTO EXTRAÍDO DO ULTIMATO JOVEM

Autor: Ultimato Online

Editora fundada em 1968, Ultimato apresenta o conteúdo Bíblico numa forma criativa e contextualizada. Ao lado de muitos outros, participa da proclamação da Boa Nova que nunca fica velha, da Esperança que nunca morre e do Salvador que nunca muda.