A MISSÃO DE SER IGREJA

30 de agosto de 2017     0

Foi meditando no Salmos 100 que comecei a não entender o motivo de boa parte de nossos louvores serem vagos e por que nossa adoração a Cristo se resume a liturgia dos cultos, e essa adoração não se estende de maneira efetiva para nosso dia a dia.

Assim que comecei a trabalhar com jovens e mulheres, observei que no ambiente cristão, há muitas pessoas feridas, com traumas e aflições profundas. E quando perguntava se recebiam algum tipo de acompanhamento a resposta era unanime: não!

Os motivos são os mais diversos, “minha liderança não sabe”, “não me sinto confortável em falar”, “pedi ajuda e não recebi”, “eles não têm mais paciência comigo”, etc. A partir disso, comecei a orar, e compreendi que Deus estava me chamando e chacoalhando para fazer algo. Ao ouvir mais e mais histórias desesperadoras discerni o rumo que deveria tomar.

Começamos um grupo de discipulado para continuar trabalhando com questões relacionadas a identidade e reconstrução da percepção de si mesmo em Deus. Nesse tempo falamos sobre nossas histórias, feridas, traumas, dores, alegrias, conquistas e frustrações. Não é uma célula, nem um grupo de autoajuda. É um grupo de discipulado, fechado, onde buscamos descobrir a identidade que nos foi dada por Deus. É natural se perder em meio as muralhas que levantamos para nos defender ao longo da vida.

O intuito é que o grupo tenha início, meio e fim com as mesmas pessoas. Para que possamos sair da superficialidade e entrarmos na intimidade. Criando laços, confiança e trilhando uma jornada de honestidade e cooperação no Senhor.

As pessoas sentem necessidade de falar de suas dores, alguns estão feridos a anos e não conseguem mais prosseguir sozinhos e infelizmente no local que deveria ser sua referência de graça, cuidado e amor, acabaram estigmatizadas e lutam com ideais de “perfeição”. Creio em um Deus que cura toda e qualquer ferida, mas sobre todas as coisas, também creio que há casos que carecem de direção, ombro amigo e também confronto em amor.

Em um dos encontros, cheguei, me sentei e falei com as mulheres: “hoje eu gostaria de ouvir vocês, não quero falar”. Disse isso porque me sinto livre para mostrar para elas, que eu também não estou bem o tempo todo, que sou real, de verdade, e que acima de tudo, sou uma mulher de Deus e que caminha com Cristo.

Logo que falei isso, os soluços ecoaram pela sala, e um choro, quase que em desespero começou a brotar e muitos colocaram para fora o que estava consumindo por dentro. Uma mulher dizia: “Se a Igreja faz parte do Corpo de Cristo, eu sou um membro amputado. Todos os dias quando chego no ponto onde tomo o ônibus para trabalhar, fecho os meus olhos e me pergunto, se esse será o dia que conseguirei me atirar na frente de algum veículo, para acabar com minha dor”.

Creio que nós lideres, devemos ser mais sensíveis as dores do outro. Isso nos custa e nos tira da zona de conforto, mas as recompensas são incalculáveis, ao ver um vaso ser reconstruído a partir do nada. Infelizmente a indiferença e a superficialidade tomou conta de muitas congregações.


Os relacionamentos são superficiais, as amizades não são entre pessoas reais. E isso está derrotando uma geração que tem tudo para ser atuante e eficaz no Reino de Deus.


Cuidar de pessoas não se resume somente a curar feridas, mas também em tratar caráter, direcionar, confrontar e prosseguir lado a lado, indicando nos caminhos e ajudando a mudar hábitos.

Acredito fielmente, que se tratarmos o caráter e feridas a fundo, em amor, com o olhar misericordioso que o Pai nos ensina, traremos à tona a identidade dada por Ele a cada um de nós, essa restauração é a essência de ser Igreja atuante na Grande Comissão.

Autor: Meni Machado

Esposa de Célio Machado e mãe de Zoé e Gael. Trabalha com aconselhamento e lidera o Movimento Mova-se. Missionária da Jovens Com Uma Missão (Jocum), em Belo Horizonte - MG