Superando as Muralhas – Duas Barreiras dos Muçulmanos com o Cristianismo

11 de janeiro de 2018    

Historicamente sempre houve algumas muralhas entre os cristãos e muçulmanos, literal e metaforicamente falando. Poucos ousaram olhar por cima destas barreiras para entender o que estava acontecendo do outro lado. Isto pode ser atestado hoje com os bloqueios que interrompem o diálogo entre o seguidor de Maomé e o discípulo de Cristo. O cristão que pretende compartilhar sua mensagem deve estar ciente das dificuldades que o muçulmano provavelmente terá para aprofundar-se na conversa. Duas destas barreiras mais comuns são a confiabilidade da Bíblia e a divindade de Cristo.

Estas duas barreiras surgem frequentemente em conversas com muçulmanos, apesar de existirem outras, como a reputação dos cristãos ou a carne de porco, por exemplo. Este artigo não tem o propósito de redigir uma resposta apologética para cada uma destas questões. Antes, apresentará em mais detalhes o que uma grande porção do mundo muçulmano acredita sobre este assunto e de onde provavelmente surge a dificuldade.

Este texto é uma ferramenta introdutória para evangelizar. A leitura deste texto não deve provocar arrogância ou repulsa pelos muçulmanos. Pelo contrário, que aumente sua compaixão e misericórdia pelos filhos de Ismael, com um desejo de compartilhar a Cristo amorosamente. Se você é um muçulmano lendo este artigo, saiba que te amamos e nos importamos com você. Talvez você mesmo tenha uma dificuldade com o cristianismo por causa destas duas questões; pode ser que você tenha outras razões ou acusações à crença cristã. Mesmo sendo um artigo direcionado aos crentes evangélicos, sinta-se à vontade para ler e explorar, mas quero te encorajar a investigar estas questões mais a fundo.

Confiabilidade da Bíblia

“A Bíblia foi mudada!” é uma das acusações mais comuns que o islamismo apresenta ao cristianismo. A grande maioria dos seguidores de Mohammed rejeita o livro dos cristãos e dos judeus pois acreditam que, durante a história, foi adulterado e manipulado por diversas pessoas, tornando-se um livro falso e perigoso. Mas por quê?

No islamismo existem determinados livros sagrados, sendo que a praticamente todas partes da Bíblia são confirmados pelo profeta do Islã. O próprio Corão diz que os muçulmanos creem na Taurah (Torá), no Injil (Evangelho), na Zabur (Salmos) e nos profetas, e que o Pentateuco e o Evangelho são dignos de confiança para guiar os homens (Sura 3:1,2). A Bíblia teria profetizado a vinda de Mohammed, como diz a Sura 7.157. O islã confirma também que a palavra de Deus jamais pode ser mudada, e o Corão confirma tudo o que antes foi escrito (Sura 5:48, 68; Sura 10:37, 64).

Todavia, os muçulmanos ensinam que estes livros sagrados foram perdidos ou corrompidos durante a história. Ao falar da Bíblia, um escritor islâmico a condena dizendo: “Uma revelação está inserida em todos esses escritos, mas nós não possuímos hoje o que bem quiseram nos deixar os homens que manipularam os textos à sua maneira, em função das circunstâncias nas quais eles se encontravam, e das dificuldades que haviam de vencer”. E isto não é um problema tão complicado, pois foram mensagens pregadas a um determinado povo de  uma determinada época. Posteriormente, cristãos e judeus podem ter omitido partes que profetizavam a vinda do islamismo e acrescentado porções que ensinam de doutrinas inventadas (como a divindade de Jesus, supostamente). Desta maneira, a única revelação confiável e permanente hoje seria o Corão, conforme revelado por Mohammed, o selo dos profetas. Toda mensagem bíblica original e relevante está contida nas Suras do Corão, então este é o livro perfeito para guiar a religião. Em resumo: os muçulmanos confiam apenas no seu livro, o Corão,  pois este contém toda revelação de Deus inalterada.

E quais seriam estas supostas modificações? Muito dirão que é evidente que a Bíblia foi adulterada pela suposta quantidade de contradições, por exemplo: Jesus ser divino, mas ter fome. Alguns citam a Sura 2:79 para afirmar que o canon bíblico é corrompido. Entretanto, a grande maioria dos muçulmanos nunca investigou pessoalmente a história da Bíblia, pois sempre ouviu que ela foi adulterada e é, portanto, um livro perigoso.

Pessoas oriundas de um contexto islâmico não conhecem as Palavras de Jesus, que disse: “até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra” (Mateus 5.18) e “é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da Lei” (Lucas 16.16-17), bem como “a Escritura não pode falhar” (João 10.35).  Eles não sabem que na própria Bíblia existe um versículo que condena qualquer um que adicione ou remova partes dela (Apocalipse 22:18-19).

Quando você conversar com um muçulmano e citar um versículo das Escrituras, é muito provável que ele não o queira ouvir. Ele sempre aprendeu que este é um livro corrompido, por que então ele deveria te ouvir? Em minha experiência, tenho sentido que uma apologética científica tende a levantar ainda mais barreiras e dificulta aprofundar relacionamentos. Antes, você tem a tarefa de pacientemente caminhar com ele em amor para conhecer pouco a pouco mais da “escritura que não pode falhar”.

A divindade de Jesus

A próxima acusação tange uma doutrina central do Evangelho, apesar de muitos muçulmanos possuirem ideias equivocadas do que realmente significa. Frequentemente ouço em conversas a acusação “Jesus nunca disse: sou filho de Deus, me adorem!” ou “ele sempre referiu a si mesmo como filho do homem”. Devemos compreender o que está na mente da pessoa que diz isto e onde ela pode estar enganada.

Devemos lembrar que Jesus, chamado de “Isa” no Corão, é uma figura muito importante no Islã também. Ele é mencionado várias vezes no Corão como filho de Maria (Sura 19:19-21), servo de Allah (Sura 19:30), profeta do Injil (Sura 5:46; Sura 57:27), e também de Messias (Sura 4:171). Ele é um profeta, tão importante quanto Moisés ou Abraão. Muhammad Ur-Rahim defende que Jesus foi “um Mensageiro que, como todos os outros mensageiros, foi enviado para aquele tempo e para aquela época, como elo de uma cadeia de revelação no universo”. O muçulmano crê fielmente que reconhecer Jesus como profeta é o maior respeito e reverência verdadeira que se pode ter por ele. Só que o Messias não é Deus.

Em várias Suras do Corão, Mohammad condena os cristãos por divinizarem a Jesus. Alguns destes textos dizem: “O Messias, Jesus, filho de Maria, foi apenas um Mensageiro de Deus, o Seu Verbo, com o qual agraciou Maria, por intermédio do Seu Espírito” (Sura 4:171-173) e “É inadmissível que Allah tenha tido um filho. Glorificado seja! Quando decide uma coisa, basta-lhe dizer: Seja!, e é” (Sura 19:35). O islã é enfático para condenar a doutrina de Trindade: “Foste tu quem disse aos homens: ‘Tomem-me a mim e a minha mãe como duas divindades além de Deus’?” (Sura 5:116-117). Esta raíz teológica levanta uma parede de diálogo ao redor de muçulmanos que se recusam aceitar os ensinos da religião que adora o filho de Deus.

Portanto, o muçulmano comum terá muita dificuldade com a doutrina da divindade e filiação divina de Cristo, mas com muitos equívocos. O primeiro equívoco é de que, para alguns, a filiação divina evoca uma ideia de geração biológica, o que é um absurdo para todos nós. Outro equívoco comum é não perceber que a expressão “o Filho do Homem” usada no Evangelho é uma afirmação do Deus encarnado (Daniel 7.13; Mateus 9:6, 12:8), e que os Evangelhos não negam a divindade ao afirmar a humanidade de Cristo (você pode ler mais sobre isto em algum livro de teologia que fale sobre “união hipostática”, cf. João 1.1-14; Romanos 1.2-5; Filipenses 2.6-11). Além do mais, O muçulmano não reconhece que as várias partes do Novo Testamento associam “Cristo” (lit. Messias) com “Filho de Deus” (Mateus 16:16; 26:63; João 11:27; 20:31). como foi explicado no primeiro ponto, ele acredita que as passagens bíblicas que afirmam a divindade de Cristo foram adicionadas ou modificadas posteriormente.

Novamente, é necessário que aprendamos a maneira mais apropriada de fazer apologética em um contexto islâmico. Precisamos de amor, paciência e confiança para responder questionamentos como “Jesus teve fome, então não era filho de Deus” ou “É ilógico Jesus ser Deus mas não ser onipresente”. Os evangélicos tem muitos livros que tratam deste assunto, mas teu desafio evangelístico é tornar as barreiras em pontes para a redenção.

Conclusão

Você teve a oportunidade de dar uma pequena olhada (glance) no que está do outro lado do muro. Há séculos que gerações de muçulmanos crescem ouvindo que a Bíblia foi modificada e Allah não tem filhos. De repente você surge no cenário: um simples cristão ocidental, mas tão convicto que precisa compartilhar sua mensagem. Como você fará para transpor estas barreiras que estão sólidas há tanto tempo?

Evidentemente, é necessário algum tipo de contextualização, para que determinado povo possa te escutar com menos ruído cultural quanto possível (este é um assunto complexo, e poderíamos aprender muitos outros artigos e livros sobre o assunto). E por onde começar? Creio que este é um daqueles casos onde “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida” (Tiago 1:5). Com muito preparo e oração, convide seu amigo muçulmano a explorar a Bíblia juntos. Permita que ele descubra pessoalmente quem é Jesus. Sua tarefa é de comunicar a mensagem  fielmente, em amor, para apresentar a salvação.

Este artigo lhe apresentou duas barreiras que provavelmente estarão na conversa ou na mente do muçulmano. Foi apenas em um nível introdutório, por isso te encorajo a se aprofundar ainda mais em cada assunto. Em tantos séculos de missões ao mundo islâmico, ainda temos muito a descobrir, mas também temos muito a aprender com aqueles que já trilharam este caminho. Que o Senhor te dê sabedoria e graça para ser, como Paulo, “ministro de Cristo Jesus entre os gentios, no sagrado encargo de anunciar o evangelho de Deus, de modo que a oferta deles seja aceitável, uma vez santificada pelo Espírito Santo” (Romanos 15:16).

Autor: Josh Milano

Jovem paulista que mora no Paraná. Casado desde 2015 e é formado no Seminário Bíblico Palavra da Vida. Desde os 15 anos de idade, seu desejo é de viver a vida de Cristo entre os povos não alcançados. Ele é professor de inglês e serve a Missão Evangélica Árabe do Brasil (MEAB) atuando no treinamento de pessoas que compartilham Jesus com muçulmanos. Ele e sua esposa estão indo morar na Ásia num país de difícil acesso ao Evangelho e por questões de segurança preservamos sua imagem.