A INCÓGNITA URBANA

18 de agosto de 2017     0

Certo dia, descia no elevador do meu prédio e notei que entrara um morador novo. Desejando fazer uma aproximação, eu lhe disse: “Bom dia! Meu nome é Sérgio. O senhor é novo no prédio?” Ele respondeu: “Sim. Sou o morador do 301” e mais nenhuma palavra. O ambiente das grandes cidades impõe a aclamada privacidade na convivência, aspecto que se ampliou com o crescimento urbano e transformou-se em um viver entre estranhos.


No contexto urbano, compra-se, vende-se, anda-se lado a lado, utiliza-se o mesmo transporte e tudo isso acontece sem que venhamos a tomar conhecimento do nome, do caráter e, muito menos, da história de vida dos outros.


A incógnita urbana, que despersonaliza e transforma gente em número (bons exemplos disso são o CPF e o celular), tem na sua base duas plataformas de sustentação. A primeira diz respeito à segurança, pois viver entre desconhecidos requer que seus dados pessoais sejam sigilosos. A segunda plataforma é o filtro, pois, por meio dele, a pessoa expõe apenas a face que deseja. No contexto urbano, compra-se, vende-se, anda-se lado a lado, utiliza-se o mesmo transporte e tudo isso acontece sem que venhamos a tomar conhecimento do nome, do caráter e, muito menos, da história de vida dos outros. Existe proximidade física e, ao mesmo tempo, um grande abismo entre as pessoas. Viver na cidade nos leva a reconhecer que o individualismo e a privacidade escondem essencialmente quem a pessoa é, o que ela fez e o que ela faz.

UM FUGITIVO NA CIDADE

A partir dessa percepção, podemos compreender melhor a carta do apóstolo Paulo escrita em Roma para o seu filho na fé Filemon, que morava na cidade de Laudicéia. A carta fala de Onésimo, um escravo de Filemon que provavelmente tinha sido desonesto e fugiu para se esconder em Roma, cidade onde Paulo estava preso em regime domiciliar. É possível crer que Onésimo tenha escolhido Roma para se refugiar, provavelmente por causa do tamanho da cidade, que contava com mais de um milhão de habitantes. O ensino bíblico nos revela que não devemos interpretar o isolacionismo e a privacidade que o contexto urbano impõe como fatores de impedimento para a missão da Igreja, mas como uma barreira a ser transposta pelo poder do Espírito Santo.

Naquela época, Roma tinha centenas de milhares de escravos, transformando aquela metrópole em um local seguro para um escravo fugitivo viver. A incógnita urbana era quase perfeita e oferecia para Onésimo o disfarce necessário para nunca ser reconhecido e lhe facultava a possibilidade de viver sem ter suas ações passadas reveladas. Considerando que ele não desejava ser encontrado, que Paulo estava preso em uma casa, que Roma era um formigueiro de pessoas indo e vindo, e que Paulo era amigo do senhor de Onésimo, é pertinente indagar: como Onésimo e Paulo se encontraram em um ambiente tão improvável?

SOBERANIA DIVINA

Se apelássemos para o caminho das “coincidências”, logo perceberíamos que as chances de tal encontro ter ocorrido seriam ínfimas. Dadas as condições, as possibilidades seriam inferiores a um em mais de 100 milhões. A carta em si não fornece explicitamente a resposta. Todavia, o apóstolo faz uma referência à providência divina ao afirmar: “Pois acredito que ele tenha vindo a ser afastado de ti temporariamente a fim de que o recebas para sempre, não como escravo; antes, muito acima de escravo, como irmão caríssimo, especialmente de mim e, com maior razão, de ti, quer na carne, quer no Senhor.” (Fm 1:15-16). Paulo não perdeu a oportunidade de ensinar a doutrina da soberania de Deus, sobretudo no que se refere à salvação e à consequente transformação das pessoas. O apóstolo afirmou acreditar que, na fuga de Onésimo, estava a mão misericordiosa de Deus. A ação divina fez com que a fuga fosse apenas um “afastamento temporário” a fim de que Filemon recebesse Onésimo para sempre, não mais como escravo, porém como irmão em Cristo. A ação de Deus na cidade em nada pode ser diminuída nem jamais frustrada pelos enigmas que o ambiente urbano gera. Deus encontra quem Ele quer, quando quer, não importa onde esteja e, por fim, realiza Seus propósitos. O fenômeno social que hoje provoca o maior movimento urbanizador da história da humanidade não é uma realidade alheia à soberania divina, como também não foi o encontro de Paulo com Onésimo em Roma. As cidades não podem deixar de ser analisadas teológica e missiologicamente, pois são, de fato, um campo missionário. Ao se espalhar pela cidade, o Evangelho de Jesus modifica relações e dignifica aqueles que o sistema social vigente considera como escória. Por meio do ministério urbano de Paulo, não apenas Onésimo, mas milhares de pessoas foram marcadas pelo Evangelho.


A ação de Deus na cidade em nada pode ser diminuída nem jamais frustrada pelos enigmas que o ambiente urbano gera. Deus encontra quem Ele quer, quando quer, não importa onde esteja e, por fim, realiza Seus propósitos. 


Uma vez que evangelização é tarefa de todos os crentes em Jesus e que a autoridade de Cristo está sobre aqueles que obedecem a essa ordem missionária, o poder de Deus vai abrir portas que não podem ser humanamente nem denominacionalmente fechadas. A incógnita das cidades não é uma barreira intransponível para que o Evangelho seja pregado nem para que pessoas se convertam de seus pecados e creiam em Jesus.

Vale ressaltar uma palavra adicional presente em um relato do século II. Em 110 d.C., Inácio era o pastor da igreja de Antioquia e foi levado como prisioneiro à Roma, onde seria martirizado. Ele escreveu várias cartas. Uma delas foi mandada a Éfeso, endereçada ao bispo Onésimo. Há muito consenso em atestar que o pastor da igreja de Éfeso era o mesmo Onésimo, o ex-escravo fugitivo. É inegável a relevância dos frutos daqueles que pregam o Evangelho nas cidades.

Autor: Sérgio Lyra

É doutor em Ministérios pelo Reformed Theological Semanary; mestre em Missiologia pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper e bacharel em Ciência da Computação pela UFPE. É coordenador do Departamento de Missiologia do Seminário Presbiteriano do Norte e pastor titular da Primeira Igreja Presbiteriana de Casa Caiada, Olinda (PE), desde 1994.