O que são os confins da Terra?

9 de agosto de 2017     0

Princípios da propagação do Evangelho na Igreja de Antioquia

Tendo o Evangelho se espalhado pela Judeia e Samaria, poderia ser dito que quando ele atingiu Chipre, Cirene, Antioquia e outras cidades mais distantes, a ordem de Jesus sobre a Grande Comissão fora cumprida. Tal posicionamento significaria o fim da responsabilidade missionária da Igreja. O missiólogo Timóteo Carriker defende que o longe está relacionado ao lugar onde o Evangelho chega em comparação ao lugar de onde ele partiu. Assim, para o missionário presbiteriano Ashbel Simonton, o Brasil era os confins e hoje, para o Brasil, os confins seriam as ilhas da Indonésia.

A ideia é interessante, pois desloca o foco missionário de Jerusalém para qualquer outra cidade e dali expande as fronteiras, fazendo surgir “novos confins”. Creio que a compreensão paulina de que o Evangelho deveria ser pregado sempre onde não fora anunciado, levou a Igreja de Antioquia a se tornar o primeiro celeiro gentio de pregação da mensagem de salvação em Cristo, tanto no âmbito local quanto no transcultural. A igreja em Antioquia fornece no relato bíblico princípios da propagação missionária local e também princípios para o envio de missionários para lugares distantes.

Antioquia, capital da Síria, era a terceira maior cidade do Império Romano. Sua população, no primeiro século, era estimada entre 300 mil e 450 mil habitantes. Foi evangelizada por cristãos que não tinham conexão com a fé judaica, e em pouco tempo tornou-se o novo “quartel general” missionário da igreja, chegando a superar Jerusalém como o celeiro da pregação cristã e missões evangelizadoras. Antioquia, “a bela”, como era conhecida, foi uma cidade composta por gregos, romanos e com forte presença judaica. A influência de várias culturas tornou a cidade impregnada de muita idolatria e imoralidade. Foi nesse contexto urbano que Deus mostrou, com grande e poderosa ênfase, que a Igreja tem a possibilidade de transformar cidades por meio do Evangelho.

Já no final do primeiro século, dados de pesquisadores indicam que cerca de um terço da cidade havia se convertido ao cristianismo. O que seria de nossas cidades se a atuação missionária da Igreja contemporânea provocasse tal impacto? Mais importante ainda é indagar: é possível reproduzir em nossas cidades o que os cristãos, pelo poder do Espírito, fizeram em Antioquia? Essas são questões que as igrejas urbanas precisam responder.

Na igreja de Antioquia as barreiras sociais, econômicas e raciais foram quebradas. Na equipe de líderes daquela igreja havia judeus ex-fariseus e um pastor africano chamado Simeão que tinha por apelido, Niger (preto) – uma clara referência de um negro no pastorado. Havia também Manaém, provável “irmão rico”, pois era colaço (irmão de seio) do tetrarca Herodes (At 13.1). Foi para Antioquia que Barnabé levou Paulo, onde este teve a oportunidade de dar início ao seu abençoado ministério pastoral (At 11.22-25). Antioquia se abriu para novos líderes, havia na igreja oportunidade para o treinamento e surgimento de novas lideranças. Foi a partir da equipe de profetas e mestres que se pôde constatar a multiplicidade racial e social da igreja e a quebra de barreiras.

Em Antioquia o Espírito Santo escolheu a primeira equipe missionária transcultural (At 13.2). É importante registrar que planejar missões para atingir cidades não significa lançar mão de um processo pecaminoso que despreza a orientação divina, ou empacota ações, cerceando o livre agir do Espírito Santo. As Escrituras nos revelam que os filhos de Deus além de terem recebido uma mente renovada (1Co 2.14; Rm 12.2), são também guiados pelo Espírito Santo (Rm 8.14).

Quando falamos de missões urbanas devemos ter nas mãos um “binóculo” para aproximar a Igreja da cidade-alvo, ver os seus detalhes, conhecer suas necessidades, mazelas e riquezas e identificar melhores meios para construir pontes que viabilizem a pregação do Evangelho e a prática das boas obras.

Autor: Sérgio Lyra

É doutor em Ministérios pelo Reformed Theological Semanary; mestre em Missiologia pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper e bacharel em Ciência da Computação pela UFPE. É coordenador do Departamento de Missiologia do Seminário Presbiteriano do Norte e pastor titular da Primeira Igreja Presbiteriana de Casa Caiada, Olinda (PE), desde 1994.