Brasil Missionário

29 de junho de 2017     0

Não é de hoje que ouvimos nos grandes congressos, escolas e departamentos da igreja que o Brasil é um grande celeiro de missionários. Nossos templos estão coloridos graças àquelas centenas de bandeiras de países que rodeiam os púlpitos e adornam as paredes dos templos. As roupas e comidas típicas durante os eventos de missões nos trazem uma grande sensação de transculturalidade. O caderninho de orações do grupo das senhoras, o projeto “O real missionário”, “Carta para um missionário”, entre outras mobilizações, demostram nossas veias apostólicas. No entanto, não é isso que se confirma no produto final, na outra ponta, onde os campos estão brancos. O maior celeiro de missões do mundo não se confirma em números.

O Brasil dos anos 80 e 90 enviou proporcionalmente mais missionários aos campos nacionais e internacionais do que o de hoje. Estima-se que a igreja brasileira ‒ hoje com mais de 40 milhões de evangélicos, segundo o último censo do IBGE, dentre os quais mais de 26 milhões são de adolescentes e jovens ‒ possua o número estimado um pouco maior que quatro mil missionários em campo. Mas o que faz uma das maiores igrejas do mundo enviar tão pouco? Não é a igreja evangélica brasileira fruto de um movimento missionário? Não foram ingleses, suecos e americanos que se esforçaram em suas agências e denominações para chegar à terra dos tupiniquins? Não temos testemunhos de missionários como os de Thomas Jefferson Bowen e Lurenna Henriet-ta, que há mais de 150 anos trocaram o conforto de suas casas para viver num Brasil não alcançado e regado pela febre amarela e malária? Onde erramos então se somos fruto do cumprimento da Missão e fomos tão motivados por pessoas como Ashbel Green Simonton e Helen Murdoch, Gunnar Vingren e Daniel Berg? Quais seriam as razões de sermos uma igreja tão econômica e culturalmente rica, jovem e globalizada, mas tão limitada quando falamos do IDE POR TODO MUNDO E PREGAI O EVANGELHO?

Uma igreja grande em quantidade, mas pequena em qualidade

Existem mega igrejas que gozam de números assustadores quando falamos de membresia. Existem igrejas que receberam milhares de novos membros em menos de cinco anos. Os valores financeiros também são assustadores. Segundo levantamento da Receita Federal, a igreja evangélica do Brasil arrecada por ano R$ 21,5 bilhões, algo em torno de R$ 60 milhões por dia. Essa mesma igreja investe muito pouco em treinamento, escolas e palestras para proporcionar desenvolvimento cultural aos seus membros. Não oferece instrução teológica adequada nem mesmo para assuntos cotidianos da vida cristã, quanto menos para assuntos missionários.


A igreja evangélica do Brasil arrecada por ano R$ 21,5 bilhões, algo em torno de R$ 60 milhões por dia


Das 14 mil igrejas inauguradas anualmente, a maioria é de natureza neopentecostal. Essa mesma maioria conhece pouco ou quase nada sobre o contexto missionário. E quando se envolvem, fazem-no por motivações ligadas à expansão denominacional, romantismo e mistificação da causa. A qualidade da teologia missionária brasileira é muito baixa. Dificilmente você recebe um missionário no púlpito de sua igreja que pregue sobre teologia de missões. Quando muito, conta casos e mais casos sobre suas aventuras, dificuldades e avanços. Também poucos pastores e mestres se orientam quanto aos desafios da Igreja mundial e repassam esse conhecimento para os membros. Ainda estamos vivendo numa época em que Missões é coisa de alguns e não de toda a Igreja.

Como a igreja na China sente a falta de milhares de pastores para as centenas de igrejas que nascem a cada ano, o Brasil sente a mesma necessidade de pastores, treinamento adequado, discipulado em pequenos grupos e muito mais do que pode gerar qualidade de vida cristã.

As igrejas de classe baixa representam a grande porcentagem de igrejas que são fundadas aleatoriamente quando o assunto é Missões. Não existe um conhecimento histórico de Missões presente em sua visão, falta capacitação teológica e antropológica e tudo mais que é natural do universo da grande comissão. Estamos a anos luz de uma resposta aos povos não alcançados quando pensamos em que fundamentos as novas igrejas são construídas.

Uma igreja jovem, porém sem voz

Você pode imaginar o que é uma igreja de 26 milhões de jovens? Compreende como é promissor o crescimento da igreja no Brasil? Se continuarmos crescendo assim, em 2040 seremos maiores que a Igreja Católica Apostólica Romana em terreno brasileiro.

O Brasil é um país jovem. Pena que existe um preconceito muito grande a respeito dos jovens quando a questão é liderança cristã. O estigma de que as lideranças devem ser compostas de anciãos é muito praticado, porém, em contrapartida, não se faz questão de preparar os jovens para liderarem a igreja de 2040. A igreja que cresce e não projeta seu desenvolvimento é tão orgânica que não possui uma perspectiva quanto ao futuro. Vai andando pelo acaso e por ele vive.


Você pode imaginar o que é uma igreja de 26 milhões de jovens?


Para mantermos os jovens na igreja oferecemos diversão, música e entretenimento, em vez de inseri-los nos desafios do reino, treiná-los para que possam ser a continuidade dos alvos dos antigos e fundadores da Igreja do Senhor Jesus. Permitimo-nos isso quando poderíamos criar uma das maiores legiões de líderes cristãos que a história conheceu.

Adolescência ainda é sinônimo de “aborrescência”, e aos jovens não podem ser confiadas grandes responsabilidades, pois nunca sabem o que querem. Por causa disso vemos os assuntos do reino, como chamados ministeriais e segmentos a serem redimidos, apagados do universo jovem, engodados pelas propostas universitárias e de mercado de terem uma profissão rentável. É a realização do sonho americano de serem apenas crentes politicamente corretos que frequentam a igreja, participam dos cultos, consomem CDs e livros, ofertam e dizimam. E nada além disso. Temos uma bomba no que tange ao potencial jovem e optamos por projetar meros religiosos.

 

Uma igreja que não venceu a cultura

Uma das habilidades do evangelho é redimir a cultura local através da práxis da Igreja. O Brasil recebeu o evangelho, mas o evangelho não superou o coronelismo, a ideia do senhor das terras, de um chefe que mandasse em todos. A pregação cresceu com o passar dos anos, mas não substituiu a visão do chefe, do padre, da autoridade espiritual, do mandachuva. Dessa forma, temos uma igreja crescente e numerosa, mas que se adaptou aos “coronéis evangélicos”, líderes de grande influência que acumulam tanto o ministério quanto o governo de suas igrejas. Uma igreja de ícones e personalidades expressivas de grande persuasão humana.

O problema disso tudo é que a pluralidade dos ministérios como os de mestre, evangelista e missionário (Efésios 4:11) não exerce nenhuma força doutrinária no seio da Igreja. O governo não depende deles nem se decide por eles. Uma igreja com a cultura centralizadora dará pouca uma igreja que sente muito e sabe pouco voz a outros líderes ministeriais para que esses determinem através de projetos e diretrizes o rumo de missões na igreja.


O Brasil recebeu o evangelho, mas o evangelho não superou o coronelismo, a ideia do senhor das terras, de um chefe que mandasse em todos.


Uma igreja que sente muito e sabe pouco

O hedonismo é, com certeza, um dos grandes males que corrói a igreja brasileira. Convicção deu lugar à emoção, o crer nas Escrituras deu espaço ao liberalismo. O Brasil tem uma Igreja que vive do sentir. Se se sentem mal, é provável que voltem atrás em qualquer contrato. Uma igreja despreparada para enfrentar o sofrimento. Igreja que, se as sensações não forem positivas, pega a mala e volta para casa. Que se mostra incapaz de prosseguir administrando críticas, privações, perseguições e perdas. Uma igreja que se identifica mais com o shopping do que com as favelas. Prefere coisas boas a pessoas que precisam de Jesus Cristo. Uma igreja que busca por prazeres jamais compreenderá um Deus que ultrapassa a dor para alcançar pessoas e dar a elas o perdão dos pecados para viverem uma nova vida em paz com Ele.

Temos uma igreja que é doutrinada, em sua maioria, por cantores e compositores de letras que muitas vezes negam a essência da Bíblia, da fé que vence o mundo e sugestiona um relacionamento emotivo e frouxo entre Deus e o crente. É impossível que uma igreja dessas cumpra a Missão.

É impossível que pessoas possam ir aos campos, renunciando seus sonhos, se vivem um conto de fadas. Jamais seriam capazes de morar em lugares distantes, sem internet, telefone, transporte, shopping, encontro com os amigos nos fins de semana em troca de ver uma igreja plantada, pessoas convertidas ao Senhor Jesus, o pecador redimido, o fim de condenação evitado porque alguém foi para algum lugar e fez discípulos em nome de Cristo.

Como consequência desse hedonismo, a busca desenfreada pelos prazeres, geramos uma igreja com conhecimento raso acerca de Jesus Cristo. Negar a si mesmo é um obstáculo e isso afasta crentes do propósito original do cristianismo. De igual forma, não poderão compreender missões e nem mesmo seus ministérios porque, embora adultos, vivem uma eterna infância espiritual. Isentam-se de qualquer responsabilidade de levar o evangelho a toda criatura, caso isso os faça sacrificar algo, em qualquer ordem, seja ela pessoal, emocional, familiar ou financeira. São antes de tudo improdutivos.

Uma igreja de muitos direitos e poucos deveres

Desde que o Brasil recebeu a teologia da prosperidade, com seus sermões de que Deus o quer próspero e que você é seu filho e por isso precisa ter do bom e do melhor, foi liberada a caça aos nossos “direitos reais”. Consequentemente, passamos a viver como quem de fato tem algum direito, e todo esforço, sacrifício, investimento, energia que não sejam empregados em resgate a esses direitos são classificados como antibíblicos. Logo, emergiu do nada um culto em que o personagem principal é o sonho de “ser o que Deus sonhou para nós”, não importando se a base do argumento é antibíblica. Como efeito colateral, anos depois, vimos pessoas isoladas umas das outras em virtude da fé que assumiram como a chave para alcançar as “promessas”.

 


O perdido e o pecador saem de cena. O pobre perde a atenção da Igreja, que seria a única a olhar por ele. As crianças voltam para a beira do caminho. Nesta realidade o mundo gira em torno do “eu”, enquanto Deus projeta sua família real na Terra.


Lutamos pela legitimidade dos direitos e omitimos na mesma velocidade os deveres. Perdemos nossas raízes históricas, embora recentes, mas que nos desconectaram da nossa humanidade e agora estamos divididos entre os que alcançaram a promessa e os que não tiveram fé para isso. O perdido e o pecador saem de cena. O pobre perde a atenção da Igreja, que seria a única a olhar por ele. As crianças voltam para a beira do caminho. Nesta realidade o mundo gira em torno do “eu”, enquanto Deus projeta sua família real na Terra.

Uma igreja de muitos direitos perde de vista os seus deveres. Os deveres de ser luz entre as trevas, não como quem cumpre a lei, mas a graça. A graça de Deus de buscar primeiro o reino e a justiça de Deus enquanto todas as outras coisas são acrescentadas. Missões é o antídoto da teologia da prosperidade, pois se baseia em renúncia e servilismo e por si só a antagoniza.

Uma igreja globalizada, mas não unida

Internet, Whatsapp, Facebook, Twitter. O mundo se conecta. As distâncias são encurtadas. O louvor que ouvimos em nossa igreja hoje é da Austrália, traduzida por membros de uma igreja de São Paulo, ensaiada pelo grupo do nosso bairro e cantada pela congregação que nunca saiu do país. Assistimos a uma pregação impactante que vem do outro lado do mundo, traduzida por algum internauta que fala o idioma do pregador e logo somos tremendamente abençoados. A tecnologia não faz mal ao homem, mas o homem faz mal à tecnologia, já dizia Billy Graham.

Um amigo lá na Eritreia curte nossos posts, uma conhecida compartilha fotos da Itália, mas não conseguimos sentar e ouvir um membro de nossa igreja em crise no casamento e a família por um triz.

Comentamos uma foto de alguém na África, mas não curtimos quando alguém liga no nosso telefone simplesmente para conversar, pois não temos assuntos para mais de cinco minutos. Podemos ficar horas e mais horas dentro de um aeroporto para fazermos uma viagem internacional, mas não temos 30 minutos para ir à casa de alguém para orar e compartilhar sobre a fé cristã. Distraímo-nos na vitrine de celulares e smartphones quando sequer lembramos que a moça bonita que nos atende é pecadora e necessita de salvação.

Mesmo com toda a tecnologia que nos fez cidadãos globalizados e Igreja internacional, não conseguimos nos unir por uma única causa. Temos tanto para oferecer no que tange à grande evangelização do mundo, mas não conseguimos nos unir para fazê-lo. Parece que o desespero que o acesso aos serviços tecnológicos nos causa é simplesmente pelo fato de que sabemos que somos seres relacionais e negamos isso diariamente. Preferimos amizades digitais e o sorriso plástico do Instagram. Relacionamento compreende saber o valor de si e do outro, e pedir isso para essa geração é pedir demais. Convivemos bem com serviços, frases curtas, encontros interesseiros e interessantes, promoções e múltiplas informações, mas não com seres humanos.

Uma igreja muito democrática e pouco cristocêntrica

Hoje existem várias formas de culto. Cultos em que o assunto central é a missão, o casamento, o pastorado, o solteiro, a célula, o estudo bíblico, mas quase nunca Jesus Cristo. As músicas giram em torno do “eu”, do outro, das promessas, da prosperidade, das emoções, mas muito pouco ou quase nunca de Jesus Cristo. Concordando com Calvino: o culto deveria ter como inspiração o Cristo.

Se o culto público não tiver como centro de sua liturgia Jesus Cristo, dificilmente se saberá o que será assunto para a igreja. Ela não é fonte de democracia, como muitos pensam, não vive de opiniões. Vive de revelação dada pelo Espírito Santo. Não adianta tentar pensar que os votos do Conselho para eleger alguém faz da igreja uma sede da democracia. Nada pode fugir às ordens de Jesus Cristo. Ele é quem edificou a Igreja e quem a sustém. O Espírito Santo, que não nos deixou órfãos, mas nos afiliou, nos lembra de todas as coisas que Cristo nos tem ensinado.


Se o culto público não tiver como centro de sua liturgia Jesus Cristo, dificilmente se saberá o que será assunto para a igreja.


A igreja que não tem Cristo como a fonte da adoração também não compreenderá sua missão. Jesus nos deu um mandamento e não uma sugestão, nem conselho ou opção. Já foi dito que o perdido de fato está perdido e, sabedor disso, Jesus Cristo nos dá a missão de ir e pregar o evangelho, e todo o que crer e for batizado será salvo, caso contrário já está condenado.

Uma igreja que conhece pouco a história e vive muito de eventos

Quando não entendemos de onde vem nosso potencial e para que se destina, somos tentados pela imaturidade a pensar que tudo o que temos é para nosso deleite e satisfação. Uma igreja rica e próspera, quando não compreende e não se situa na história, tende a pensar que não há nada o que fazer a não ser atender às suas próprias expectativas. Seria como um motor que funciona com apenas 10% de sua capacidade. Se não conhecermos a história, reproduziremos os mesmos problemas de igrejas antigas como a inglesa, a americana, entre outras, que perderam seu foco de ser sede da verdade e justiça de Deus na Terra. É necessário observar a condução da Igreja por entre os séculos. Uma igreja que não sabe seu passado não poderá projetar seu futuro.

A história da igreja brasileira é tão recente que não chega a dois séculos, enquanto existem igrejas no mundo que têm de vida o tempo que o Brasil tem de descobrimento. É lógico que precisamos estudar a história, perceber as formas de lideranças, as reformas teológicas, os tratados, as confissões de fé, os mártires, para que de uma forma sábia construamos uma Igreja humilde e potencialmente ativa para realizar a tarefa da Grande Comissão.

Uma das maiores igrejas do mundo precisa conhecer a história do cristianismo mundial para que possa entender e se situar bem na peregrinação, se posicionar de maneira adequada aos comandos do Senhor Jesus Cristo. Uma igreja que não conhece os relatos da história irá viver de momento e não compreenderá a oportunidade que lhe está proposta.

Durante o avivamento em Herrnhut os morávios enviaram mais missionários em vinte anos do que a Igreja havia enviado em dois séculos. Há relatos de que não havia mais jovens na igreja local, pois todos teriam se despertado para a urgência da salvação. Uma igreja infinitamente menor que a do Brasil, mas que marcou para sempre a história. Se não conhecêssemos relatos como esse, sobre jovens avivados de tal modo, poderíamos pensar que estamos cumprindo e realizando o sonho de Deus para nós simplesmente por frequentar a igreja. Existe uma transformação para as nações que Deus deseja que aconteça e Ele não irá usar ninguém a não ser a sua Igreja que está na Terra, inclusive a brasileira.

O Corpo de Cristo no Brasil corresponde a uma grande força missionária para a Grande Comissão. Não levar história para a igreja faz dela leiga e irrelevante quando poderia ser a resposta de Deus para este século. Oremos por um avivamento de valores eternos para a nossa igreja verde e amarela.

Autor: Breno Vieitas

Pastor e missionário em Sevilha na Espanha. Mobilizador do Grupo Povos e Línguas.