Nutrindo novas histórias

Por Ailton C. Alves Junior     24 de maio de 2017     0

Profissionais da saúde podem se unir às várias frentes de apoio no campo missionário, promovendo qualidade de vida à populações carentes ao redor do mundo

Era uma vez um  menino desnutrido. Separado dos pais e recém-assumido pelos  avós,  certo  médico, sobre ele, chegou a prognosticar, quando da queda de seus  cabelos por causa da desnutrição: “Acho que esse menino não vai vingar…”.

Até aí, a história  desse  pequeno não  era  uma  exceção.  Embora o mundo produza atualmente alimentos suficientes para todos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU),  850  milhões  de  pessoas passam fome e 165 milhões de crianças estão desnutridas. Aproximadamente 50% da mortalidade infantil está direta ou indiretamente relacionada a esse motivo.

Tudo levaria a crer que esse menino “engordaria” as amargas estatísticas de complicações da desnutrição infantil se não fosse um porém: Deus entrou na vida dessa criança. Diante de muitos desafios, esse menino, discipulado por um trabalho de um missionário norteamerico no Brasil, cresceu e tornou-se um médico com vasta experiência internacional em saúde pública. No momento oportuno, seu amor por missões fez com que ele buscasse  do passado sua história, se juntasse a outros cristãos comprometidos com o amor de Deus e com a justiça e decidissem agir para que o futuro de muitos pequenos desnutridos não fosse apenas mais um frio número nos informes globais da doença.

Dr. Ailton Alves e equipe da Casa Nutrir examinando crianças suspeitas de desnutrição durante mutirão da saúde – Fernanda Nasser

Surgiu assim a Casa Nutrir: um programa modular de combate à desnutrição infantil, que está em curso no continente  africano. Sabe-se que as causas da desnutrição infantil não raramente expõem adversas vulnerabilidades biopsicossociais que caracterizam esse contexto. A desnutrição, como problema de saúde pública, é uma doença da pobreza, um marcador social. Para fazer frente em tempo oportuno às consequências da desnutrição infantil, as quais incluem lesões cerebrais irreversíveis que limitarão a capacidade física e mental dessas crianças, a Casa Nutrir adiciona à assistência à saúde as ações educativas, a produção local de alimentos nutricionalmente ricos e o fornecimento de suplementos alimentares para as crianças com desnutrição severa. Agentes comunitários de saúde vivenciam o cotidiano das famílias inseridas; tudo isso norteado pelos fundamentais   valores   daquele que  verdadeiramente nos alimenta para seguirmos em frente: Jesus.

O ponto de partida para a Casa Nutrir é Moçambique.   Ocupando em 2013 o antepenúltimo lugar no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dos 187 países listados pela ONU, esse  país, que ainda carrega as marcas de uma sangrenta guerra civil, tem praticamente a metade de suas crianças afetada pela desnutrição. Por conseguinte, Moçambique já assume que não conseguirá cumprir muitos dos seus compromissos, inclusive com a comunidade internacional, se a desnutrição não for  controlada.

Em  parceria com o CECORE (Centro de Corredores do Reino), uma séria missão brasileira atuante na cidade de Nampula, as primeiras crianças desnutridas foram inseridas no projeto na comunidade da Carrupeia, onde 90% da população é islâmica e/ou animista. Para tal, o CECORE  e lideranças comunitárias locais receberam  uma  capacitação  teórico-prática, ministrada pela equipe Casa Nutrir Brasil, para 30 pessoas de 11 diferentes organizações locais.

Assim, o pastor Cesinha, Rebeca e sua equipe  demonstram de forma prática  o  amor  de  Cristo para crianças como o pequeno E,  trazido de longe por sua mãe ao saber que encontraria uma resposta para o seu problema (Na época, E., com 1 ano e 9 meses, tinha 6 quilos, peso equivalente ao de uma criança de 4 meses).

Saindo da impessoalidade, a Casa Nutrir e eu acreditamos na Igreja fora das quatro paredes, movida pelo Evangelho transformador de Cristo, para que uma nova geração de crianças por toda a Terra experimente integralmente a graça de Deus!

 

Autor: Ailton C. Alves Junior

Médico coordenador da Casa Nutrir e ex-participante das estatísticas globais da desnutrição infantil
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