Formigas, amor e graça na Amazônia

5 de outubro de 2017     0

O dia amanheceu por volta das sete e meia e eu estava terminando o meu café da manhã. E enquanto segurava a caneca de café com uma mão, a outra ainda coçava as mordidas de formiga que ganhei ao longo da noite, pois todos os voluntários dormem no chão com colchonete. O problema é que eu devo ter ficado bem no caminho das formigas amazonenses, e como elas não tem buzina, mordem doído quem ousar ficar em seu caminho!

Passado o momento coceira, me juntei ao grupo que escolhi seguir para fotografar naquele dia, isso porque em cada dia eu estava em um setor diferente da Missão, para conseguir cobrir todas as áreas de atuação. Assim rapidamente nos reunimos, oramos, tivemos o briefing e partimos. Era julho de 2017, e mais uma dia de trabalho na Amazônia com a organização Asas de Socorro em mais uma edição do Projeto IDE.

Iniciamos uma caminhada e bastou dez minutos de caminhada e as casas ficavam cada vez mais distantes umas das outras e cada vez mais precárias. Nessa hora, eu já tinha mais de oitenta fotos do grupo, mas nenhuma de ações de evangelismo.

Começamos a bater na porta das casas, na primeira não havia ninguém, na segunda não foram muito amistosos e a terceira foi a casa que Deus escolheu para nos usar. Era uma casa muito simples, mas o dono nos recebeu com um largo sorriso, bem diferente dos anteriores. E apenas com alguns segundos de conversa no portão da casa, fomos convidados para entrar e conhecemos sua esposa e suas quatro filhas:  três pequenas e a quarta a caminho, no ventre da mãe.

Sentamos no quintal à sombra de grandes árvores e o grupo de evangelistas falava sobre Jesus. Enquanto eles falavam, eu observava ao meu redor, buscando o que iria fotografar. Até quando olhei os pés de uma das filhas daquela família. Para meu choque, seus pés estavam coberto de feridas e ela não parava de coçar essas feridas que já estavam na “carne viva”. Naquela hora, só de ver o desespero da pequenina, as minhas coceiras das mordidas de formiga passaram…

Eu não aguentei e na primeira pausa, perguntei ao pai da família o que ela tinha. E o pai respondeu que deveria ser uma alergia. E o mais assustador foi quando ele disse que ela estava naquela situação a um ano. Imediatamente todo o grupo fez a pergunta óbvia, porém desnecessária. Perguntamos:

               — Por que não leva ao médico?  E a resposta foi devastadora…

A mãe respondeu que não havia hospital e muito menos pediatra público naquela pequena cidade. E para ir até Santarém, a cidade mais próxima, custava cem reais por pessoa, com agravante da possibilidade de chegar no hospital da capital e não ser atendido. Assim, sem dinheiro para se deslocar e sem garantia de ter alguma solução, a família não tinha o que fazer além de esperar em Deus.

E  naquele instante percebi que éramos nós os escolhidos para auxiliar aquela família, em poucos segundos Deus me mostrava mais uma vez que sou fotógrafo mas, antes disso, sou um missionário. O que quero o dizer que vou para as missões para tirar fotografias, mas Deus me faz entender que Ele me usa como quer e deseja, justamente por eu e meus colegas nos dispormos a servir seja onde for.

Então, orientamos aquele Pai em levar a filhinha para o médico da Missão, porque Asas de Socorro levara um grupo de médicos, dentistas e enfermeiros para atender o Município. Orientamos e explicamos que eram médicos voluntários experientes e que iriam fazer tudo de graça. Ele com alegria falou que iria levar no mesmo dia. Nos alegramos pois sabíamos que a Missão poderia ajudar aquela família. Os evangelistas iriam voltar naquela casa mais quatro dias para estudos bíblicos.

Passado alguns dias, eu estava debaixo do sol escaldante de 38 graus no período da tarde tirando fotos na área da saúde. Basicamente eram fotos de todas as ações do grupo de saúde. E de repente, durante meus clicks, me deparei com a Dona Helena, a mãe das quatro filhas, no meio da consulta da filha que estava com aquela alergia. E o melhor foi saber que todas as filhas junto da mãe passaram pelo médico e dentista.

No finalzinho do dia, Deus me deu o privilégio de encontrar a menininha com suas irmãs e a mãe já com o remédio nas mãos, fornecido pela farmácia da Missão. Era um antibiótico que a família não teria condições de comprar, o qual era a solução para aquela alergia. E o melhor foi ver nos dias seguintes a dona Helena envolvida nas outras programações da missão como o Artesanato e as filhas na programação infantil.

Conversando com aquela mãe, percebi que ela enxergava o amor de Cristo em cada um dos missionários voluntários. Porque ela sabia que eles estavam ali voluntariamente, que serviam por amor a Cristo. E isso, fez com que ela pudesse testemunhar através de nossas próprias vidas tudo que ela aprendia nos estudos bíblicos junto aos evangelistas toda manhã em sua casa. E assim, era mais uma família com o coração quebrantado pelo amor e compaixão de Jesus que abria as portas para receber as sementes do Evangelho.

Assim, aprendo que missão é espalhar o Evangelho e principalmente refletir o amor de Jesus em todas as nossas ações. E que nenhuma fotografia terá sentido ou valor para o Senhor se não for por amor a Ele. A cada nova experiência as palavras de Jesus tem ainda mais profundidade e aplicação: “Ame ao próximo como a ti mesmo” (Mt 12.33).

Leia a Revista Missões com a cobertura completa do Projeto Ide 2017.

Autor: Odair Massao

Atua na área de comunicação, fotojornalismo e design, através do ministério MASSAO EM MISSÕES. Tanto nos projetos missionários da igreja local, como nas organizações como Junta de Missões, Asas de Socorro, Palavra da Vida, Amazon Outreach, JUVEP, dentre outras. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com mais de 16 anos de experiência em Gerenciamento de Obras e Projetos (Project manager).