Mohamed

Por Tágory Figueiredo     2 de fevereiro de 2017     0

O clamor e a urgência da Igreja Sofredora

O mundo está de cabeça para baixo. Guerras e rumores de guerras tomam conta dos noticiários. As estatísticas de refugiados e migrantes são crescentes e atualizadas diariamente. Há cristãos sendo executados e mortes bárbaras sendo mostradas em forma de espetáculo. 

Quem acompanha o noticiário logo vê que não dá para acompanhar tudo. Infelizmente o anormal torna-se habitual e, mais triste ainda, pouco a pouco, a indignação vai dando espaço à indiferença. Graças a Deus que, por sua misericórdia, Ele usa seus enviados para nos lembrar que, por trás de tudo isso, existem pessoas e uma urgência missionária que realmente importa.

Quando chegamos à Alemanha, como missionários bivocacionados da Igreja Batista Central, nem imaginávamos as experiências que nos esperavam.

Abrimos uma célula em casa, trabalhando para trazer despertamento a tantos cristãos meramente nominais, para alcançar as pessoas com o amor de Jesus. Temos desafios diários — cultura, adaptação, saudade etc. Aprender a língua é um caso à parte.

Às vezes, tudo isso junto gera um grande desgaste que nos deixa cansados, mas Deus envia seus santos para renovar nossa esperança.

Um desses é Mohamed — um refugiado afegão membro da nossa célula. Ele tem tanta história para contar que daria para escrever um livro. Conheceu o Evangelho recentemente, creu em Jesus e hoje é um cristão contagiante. Certa vez, sem saber, ele foi meu missionário particular. Eu falava da minha ansiedade de aprender o idioma e perguntei como ele tinha feito para estudar. Ele contou que chegou aqui aos 30 anos, analfabeto, sem nunca ter ido à escola. Antes de poder aprender alemão, teve que aprender a ler. Foi um testemunho de perseverança que renovou a minha fé.

Numa de minhas visitas, perguntei-lhe sobre sua família, se queriam vir morar com ele. Mohamed respirou fundo, suspirou e disse: – “Olha, quando eu liguei para a minha mãe e contei, todo feliz, que eu tinha aceitado Jesus, ela disse: – ‘Mohamed, você traiu a sua família! Você nos traiu. Você não é mais meu filho. Não sou mais sua mãe.’ ” Ficamos calados, com os olhos marejados. Eu só conseguia pensar na passagem de Mc 10.29-30, que pedia Mohamed que lesse. Ele pegou uma Bíblia em persa, sua língua materna, e leu, ainda com alguma dificuldade. Olhou direto nos meus olhos e chorou.

Esses testemunhos marcaram a minha fé. Primeiro, porque mostram que uma vida cristã verdadeiramente comprometida implica desafios diários, mas eles não são maiores que a graça de Deus. Segundo, mostra que, enquanto milhões de cristãos mundo afora, de uma igreja genuinamente sofredora, enfrentam severas agruras, como a rejeição da família e até a morte pelo amor de Jesus, outros tantos assistem calados, como se nada estivesse acontecendo.

Que essa realidade desperte corações para começarmos a agir em vez de tão somente a tudo assistir indiferentes!

*Artigo retirado da Revista Povos e Línguas, nº 8, ano 2.

Autor: Tágory Figueiredo

Advogado, mestre em Direito Internacional. Atua na Alemanha como missionário bivocacionado da Igreja Batista Central de Belo Horizonte - MG. Casado com Ana Carolina Schwab, pai do Daniel e da Catarina
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