O QUE DEUS QUER DE VOCACIONADOS FRUSTRADOS?

6 de setembro de 2017     0

Empolgação, frustração, ansiedade e senso de urgência. Se você é alguém que entende o chamado de Deus para ir ao ministério, porém não chegou lá ainda, então provavelmente já experimentou algum destes sentimentos. Infelizmente, eu conheci vários vocacionados encarando os anos de preparo e espera apenas como um mal necessário. A habitual mentalidade de “estou fora da vontade de Deus se ainda não cheguei ao ministério integral” causa frustração e desânimo, que frequentemente leva à beira da desistência. Em múltiplos momentos, eu mesmo fui um destes vocacionados. Mas ao olharmos para a vontade de Deus na Bíblia, podemos começar a compreender que o tempo antes do ide é uma benção recheada de oportunidades exclusivas deste momento de vida. Eu quero compartilhar algumas perspectivas que precisamos ter para evitar erros e ter maior proveito antes de partir. São dicas que eu preciso manter em mente e, se Deus quiser, também servirão você em sua caminhada.

 

MENOS JOGO, MAIS TREINO

Fãs e praticantes de qualquer esporte conhecem bem a expressão “pré-temporada”. Este é um período de treino e jogos teste antes do começo dos principais campeonatos. Nas principais ligas dos EUA, os times profissionais reservam o período de “acampamento de treinamento” antes da temporada regular. As equipes que participam da Copa do Mundo de futebol testam seus elencos em jogos amistosos antes de partir para o país sede. Até a Fórmula 1 faz uma pré-temporada para regular os motores e testar os carros. Os técnicos consideram este período essencial para definir os titulares, avaliar e melhorar a condição física dos atletas e escolher as melhores estratégias de jogo. Um time que vai bem na pré-temporada geralmente terá um bom desempenho nas ligas e campeonatos.

As semelhanças com o ministério são várias; o período de treino é indispensável para o bom rendimento em campo. Surpreendentemente, muitos vocacionados querem ser titulares em jogos de campeonato logo no dia após serem convocados. Se você recebeu um chamado de Cristo, isto é algo muito bom! Porém, se quiser jogar no time do Reino de Deus, é necessário se dedicar e suar na pré-temporada. A etapa que você está vivendo é para aprimorar-se no treino; e O Técnico desta equipe não considera isto uma perda de tempo. O Senhor quer que você seja fiel no ministério (1 Coríntios 4.2) e o antes do ide é o tempo para aprender e se preparar para tal tarefa.

O que acontece na pré-temporada ministerial? Primeiramente, são alguns anos que Deus usará pessoas e circunstâncias para moldar seu caráter. Se você é preguiçoso, o Senhor te ensinará a servir. Se você é insubmisso, Ele colocará autoridades para te ensinar a obedecer (Tito 3.1; Hebreus 13.17). Se você tem problemas de relacionamentos (e frequentemente nem sabemos que temos), Cristo te trará perto de pessoas carentes de misericórdia, perdão e longanimidade (Colossenses 3.12-13). Estes impasses não são tratados no primeiro jogo de campeonato. Pelo contrário, são corrigidos e moldados em exercícios repetidos e treinos que te dobram até o limite.

Aqui estão algumas sugestões de treinos para você praticar na sua pré-temporada.

b) Estude a Bíblia. Paulo exorta Timóteo a apresentar-se a Deus “aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2.15). Você está em uma época única para devotar-se a ler e aprender da Bíblia. Um tempo que, possivelmente, você estará ocupado demais para ter depois.

c) Vá em viagens missionárias de curto prazo. Cada saída, por mais perto que seja, é uma chance de aprender a trabalhar em equipe, servir em outra cultura e ministrar debaixo da liderança de alguém mais experiente.

d) Sirva em diversos ministérios da igreja local. Além de crescer em experiência, a igreja te reconhecerá como vocacionado através do seu trabalho (Tito 2.7). Alguns vocacionados cometem o erro de diminuir seu envolvimento na igreja local conforme progridem no chamado.

e) Acompanhe de perto pastores e missionários experientes. O Senhor me deu o privilégio de caminhar ao lado de alguns homens piedosos que me ensinaram e exortaram através de suas experiências. Se aproxime destas pessoas e peça ajuda na caminhada (2 Timóteo 2.22).

A maioria dos jornalistas esportivos concordará que a vitória da equipe alemã na Copa do Mundo de 2014 veio após anos de preparo e planejamento. O goleiro brasileiro Júlio Cesar afirmou em entrevista: “O grupo da Alemanha foi formado ao longo dos últimos anos e chegou neste Mundial com muita força e mais amadurecido. Eles aprenderam bastante e conseguiram colocar tudo isso em prática”. Preparo é bom, preparo é essencial. Dê seu máximo no treino se quiser jogar.

NÃO QUEIMA ETAPAS

Uma triste realidade sempre comentada no meio missiológico é que muitos missionários brasileiros voltam do campo frustrados e infrutíferos após uma curtíssima temporada de serviço. Dificuldades de relacionamentos, adversidades na cultura e língua, saúde, burnout e depressão… as razões são numerosas, mas algumas apontam para problemas que poderiam aparecer e serem tratados na fase de preparo em etapas que, lamentavelmente, são ignoradas, mal feitas ou puladas.

Não queime etapas. Uma etapa queimada agora pode se tornar em um ministério queimado depois. Cada etapa, até a mais dolorosa, deve ser encarada como necessária para glorificar ao Senhor em fidelidade. Você verá que o período de preparo foi criado por Deus para nos tornar mais parecidos com seu Filho (2 Coríntios 3.18).

Eu poderia enumerar várias partes do processo que são essenciais, mas  listei apenas algumas etapas que jamais podem ser queimadas:

g) Conversão (Tito 3.5). Pode parecer óbvio demais eu mencionar isto aqui, mas existem supostos vocacionados que entram nos seminários, agências e equipes sem jamais experimentar a salvação pela graça no Evangelho. O primeiro chamado a ouvir precisa ser o de Cristo te chamando das trevas para a luz.

h) Santificação (Hebreus 12.14). A vida cristã sempre estará na luta contra o pecado aqui na terra. Antes de ir ao ministério, esteja comprometido.

i) Conhecimento e vivência bíblica. Como já mencionado acima, torna-te o obreiro “que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2.15).

j) Reconhecimento espiritual. O número de obreiros que queimam esta etapa é assustadoramente grande. Você tem que se preocupar em receber a “imposição das mãos do presbitério” (1 Timóteo 4.14). Não vá ao ministério sem o reconhecimento de sua igreja.

Existe a história de dois lenhadores que propuseram uma competição. Um jovem vivaz e um mais velho e experiente. A competição consistia em cortar mais lenha durante uma jornada de trabalho. O jovem usou toda sua energia incessantemente, mas ficou surpreso ao ver no final do dia que seu amigo mais velho havia tranquilamente cortado o dobro de lenha. O segredo? O jovem não afiou seu machado em nenhum momento. Se queimar etapas, por mais dedicação que tenha, você não irá muito longe.

NÃO VÁ SOZINHO

Quem sabe a cena acima é mais comum do que imaginamos. O jovem vocacionado poderia ser eu, você ou qualquer outro. Quando não recebemos a resposta desejada, nossa tentação é de largar todos e partir por conta própria; “se ninguém vai, deixa que eu resolvo sozinho”. Outros vocacionados se tornam críticos que cobram seus supostos direitos. Mas será que é isso que Deus quer de mim e de você?

O Senhor não deseja que você vá para o ministério sozinho, por conta própria (Efésios 2.21-22; 4.16). Paulo exorta Timóteo a usar seu dom “com a imposição de mãos do presbitério” (1 Timóteo 4.14).

Primeiramente, seja muito paciente e obedeça sua liderança. Leia o que diz Hebreus 13.17: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros”. Se você está pensando em William Carey, que precisou desvincular-se da advertência dos pastores de sua época, saiba meu amigo, você não é William Carey. Ele sofreu, e sofreu muito, nos deixando a lição de que missões não se faz sozinho.

Em segundo lugar, não brigue. Pode ser que nosso desespero dê vontade de censurar imediatamente a “fraca e limitada” visão missionária dos nossos irmãos. Se você acha que sua liderança ou igreja não tem visão, então temos duas possibilidades:

a) eles não tem visão mesmo e o Senhor os responsabilizará por isso, ou b) eles tem visão, mas entendem pelo Espírito Santo que ainda não é seu tempo. Seja qual for a situação, não é o papel do vocacionado corrigir sua igreja; deixe que seu pastor o faça isso ao pregar as Escrituras. Você pode e deve sim estudar e compartilhar da Bíblia, divulgar as necessidades e firmar-se em suas convicções. Entretanto, não seja faccioso (Tito 3.10): “Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente” (2 Timóteo 2.24 ). Ministre como Paulo, que escolheu ser carinhoso com os irmãos para tornar-se amado (1 Tessalonicenses 2.7-8).

Por fim, desenvolva parcerias. Lembre que as pessoas que ficam em apoio também estão comprometidas com a obra e você precisará de suas incessantes orações e sustento. E que privilégio é quando seus irmãos em Cristo te amam e demonstram carinho! Agora é teu período único de vida para desenvolver amizades com aqueles que depois ficarão segurando as cordas.

SAIBA QUE CRISES SÃO CONSTRUTIVAS

Recentemente comprei uma camiseta que me chamou atenção pela frase de  Franklin D. Roosevelt estampada no peito: “um mar tranquilo nunca criou um marinheiro habilidoso”. Um marinheiro se torna experiente e capaz depois de enfrentar diversas tempestades, ondas e ventos; crises que aprimoraram suas habilidades de navegação. Deus também usa crises para aperfeiçoar seus obreiros e polir suas aptidões (Romanos 5.3-4; Tiago 1.3).

Aqui estou me referindo a crises ministeriais: quando um obreiro se depara com dúvidas, questionamentos e desânimo em relação ao seu chamado e trabalho. Se você conversar com qualquer pastor veterano, ele poderá te relatar das várias vezes que ele teve que lidar com suas incertezas. Eu mesmo já passei por algumas crises que conduziram a mais amadurecimento espiritual. Todo vocacionado autêntico enfrentará crises pessoais, em diversos graus de intensidade. Isto pode soar para você como más notícias. Entretanto, precisamos entender que Deus quer usar as crises e a angústia para lapidar maturidade e dependência em você.

Roland Muller estudou a vida de vários evangelistas fiéis e bem-sucedidos. Um destes o explicou qual era a característica em comum na vida deles:

“Veja se não há alguma situação ou algumas situações com cada um, onde estes homens e mulheres se encontravam em uma tremenda crise; uma crise que os destruiu; uma crise que os colocou de joelhos; uma crise que os privou de si mesmos, onde eles morreram para si mesmos, e entregaram suas vidas completamente a Deus.” (O Mensageiro, A Mensagem e a Comunidade. 2013, p. 35)

Constantemente me recordo de uma frase que sempre ouvi na igreja e no seminário: “o que você é aqui, você será lá fora”. Crises agora são fundamentais para te transformar em quem você será no campo: firmando convicção do chamado, impelindo à dependência de Deus e conduzindo à piedade. Primeiramente, você precisa desenvolver convicção do chamado para não se queimar depois. Joed Venturini de Souza afirmou “Haverá momentos em que isso é tudo que o missionário terá para se firmar. Essa convicção será sua tábua de salvação. Se não a tiver, certamente afundará” (Antes do Ide, 2005. p.18).

Os momentos de incerteza também nos lembram da importância de orar e buscar as Escrituras. Entre o primeiro e segundo ano do seminário, eu enfrentei uma crise grande em algumas escolhas de futura carreira e ministério. O Senhor usou aquela fase para me ensinar a investir tempo na Bíblia e oração para tomar grandes decisões. As dúvidas nos fazem correr para aquele que conhece todas as respostas.

Uma última palavra sobre crises. Eu conheço muita gente com receios ou incertezas por alguma das razões adiante: primeiro, você pode estar esperando por mais tempo do que julga necessário. Talvez você é um vocacionado que gostaria de ter ido ao campo ou ministério a algum tempo atrás. Você considera um desperdício ainda estar servindo em um lugar com menos necessidades do que lá longe. Eu mesmo conheço várias pessoas que se sentem frustradas por estar em preparo há dez, doze ou quinze anos. Se o Senhor te respondeu com um não agora, lembre “que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” (1 Samuel 15.23). Ainda é tempo de obedecer aqui, não sacrificar-se lá fora. Isto é agradável a Deus.

Segundo, você pode estar em crise porque quer casar, mas o Senhor ainda não te enviou seu companheiro de vida e ministério. Mesmo que angustiante, sua vida enquanto solteiro é um privilégio para servir ainda mais a Deus! 1 Coríntios 7:32 “O que realmente eu quero é que estejais livres de preocupações. Quem não é casado cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor”. Aproveite seus anos como solteiro para trabalhar mais, visitar mais campos e, possivelmente, investir mais dinheiro em missões.

CONCLUSÃO

Existem diversos outros conselhos sobre o que Deus quer dos vocacionados. Entretanto, creio que a lição principal é que você pare de ver o tempo de preparo como um frustrante desperdício de tempo e passe a enxergar a mão do Senhor abençoando sua caminhada. Saiba que o treino é muito importante, portanto Deus usará crises e outras pessoas para te moldar no processo. Jesus prometeu estar conosco todos os dias (Mateus 28.20), inclusive nos dias de vocacionado. Ele continua soberano em nossa vida e tem propósito para o tempo de preparo. Que Cristo possa transformar tua ansiedade e frustração em descanso e alegria para o dia de hoje.

Autor: Josh Milano

Jovem paulista que mora no Paraná. Casado desde 2015 e é formado no Seminário Bíblico Palavra da Vida. Desde os 15 anos de idade, seu desejo é de viver a vida de Cristo entre os povos não alcançados. Ele é professor de inglês e serve a Missão Evangélica Árabe do Brasil (MEAB) atuando no treinamento de pessoas que compartilham Jesus com muçulmanos. Ele e sua esposa estão indo morar na Ásia num país de difícil acesso ao Evangelho e por questões de segurança preservamos sua imagem.