A missão e a Glória de Deus

10 de agosto de 2017     0

Deus está reconciliando o mundo consigo na pessoa de seu filho Jesus Cristo (II Co 5.19). A verdade cristã não é necessariamente um conceito, uma ideologia nem uma crença científica: é uma pessoa. Cristãos insistem na verdade de que o universo é uma resposta a um ato deliberado de criatividade inteligente e pessoal. Nesse caso, a sabedoria e pessoalidade de Deus.

Senhor se volta para suas criaturas em amor incondicional por uma única razão: sua glorificação. O termo “glória” nem sempre é claro, mas implica essencialmente a exposição de quem Deus é. Todas as vezes que olhamos e notamos algo que nos comove e nos leva a um senso de gratidão inexprimível, estamos, de alguma forma, maravilhados com o que podemos chamar de Mistério Profundo, a glória de Deus. Essa experiência é singular. Parece que alguém está permitindo ser visto e está se expondo para que nos maravilhemos. E, de fato, é exatamente isso! As obras de Deus são maravilhosas (Sl 19; 104) e toda a Terra está cheia de sua glória (Is 6).

O cristão não foi apenas reconciliado com Deus. Ao crer, ele é imediatamente convocado para exibir a glória do Pai por meio de palavras e ações. Ele é alvo e cooperador da missão de tornar Deus conhecido. Afinal, o Deus da Bíblia é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (Ex 3.15), ou seja, o Senhor é conhecido e identificado por meio daqueles com quem se relaciona.


O cristão não foi apenas reconciliado com Deus. Ao crer, ele é imediatamente convocado para exibir a glória do Pai por meio de palavras e ações.


Deus rejeita toda tentativa de ser representado por imagens, pois Ele escolheu se revelar ao mundo por meio de relações pessoais, não na impessoalidade dos ídolos. A relação é baseada na graça. Ídolos são baseados em obras. A comunhão é uma dádiva. Ela não pode ser controlada nem requerida. A comunhão é fruto de um evento pascal em que o próprio Deus chama seus eleitos do Egito. A missão cristã se funda na libertação, reconciliação e comunhão que temos com o Soberano Deus por meio de seu Único Filho.

Definitivamente o propósito da missão é a glorificação de Deus. Um dos meios que Ele utiliza para esse fim é o testemunho que emerge da união do cristão com Cristo. Timothy Keller assevera: “Cristo não é um argumento irrefutável; ele é uma pessoa irrefutável”. Mais do que argumentar, nossa apologética e evangelização se fundam na pessoalidade de Deus que se fez carne em Jesus Cristo. Bem situado no tempo e no espaço, o Verbo se fez carne. Por isso, Ele se fez história e virou gente. Agora, em vez de ficarmos ansiosos tentando projetar em imagens nossas expectativas ou nossos conceitos sobre quem é Deus, Ele mesmo, na pessoa de seu Filho, projeta-se em nós, como diz Paulo: somos transformados na imagem de seu Filho de glória em glória (II Co 3.18).

Não seria exagero nenhum alegar que a missão cristã é fundamentalmente escatológica. Cristãos não são apenas espectadores de um evento futuro, pois eles já vivem a consumação pela esperança. Todo cristão deveria viver sob o grito do Cristo na cruz: “Está consumado!”
(Jo 19.30).

Não temos nada a conquistar que Cristo não tenha conquistado. Apenas proclamamos que Deus já reconciliou o mundo, já venceu em Cristo, que Ele é vitorioso, e o mal foi derrotado. Naturalmente as pessoas olharão com desdenho ante a tal alegação, porém sabemos que “a ovelha conhece a voz de seu pastor” (Jo 10.16) e corações peregrinos serão atraídos irresistivelmente a esse testemunho. Magneticamente conduzidos pelo Espírito Santo, eles vão ouvir uma música familiar, o canto de Moisés e do Cordeiro: “Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações! Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo. Por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos.” (Ap 15.3-4).

Como cristãos, não precisamos criar uma tensão entre a proclamação do Evangelho e os serviços que derivam dele. Não precisamos criar uma tensão entre a Grande Comissão e o Grande Mandamento. Há uma clara integração bíblica entre a obra de Cristo e as obras que realizamos em Cristo. Não somos salvos por obras, mas para obras (Ef 2.10). Fomos salvos para exibir quem é Deus por ações, serviço e criatividade. Que nossa mensagem seja pavimentada por obras graciosas e que obras graciosas legitimem nossas palavras.


Há uma clara integração bíblica entre a obra de Cristo e as obras que realizamos em Cristo.


Recentemente asseverou Guilherme de Carvalho: “Ações cristãs no mundo precisam ser tratadas como sinais subescatológicos, ou seja, sinais da obra consumada, sem pretensões de serem a consumação. Que missionários estejam fielmente presentes no mundo, porém livres da ansiedade de arrogarem para si um papel que pertence a Cristo.

Enfim, o missionário não pode ser um triunfalista nem um romântico ingênuo. Antes, deve ser um servo esperançoso que caminha olhando para o horizonte da história, sabendo que Deus está lá e aqui, em Cristo, reconciliando consigo mesmo o mundo. O missionário sabe que sua vida aponta para uma única tarefa: a glorificação de Deus. Não há espaço para utopias, ufanismos nem planos de carreira nas palavras de nossos reformadores: Soli Deo Gloria! (Somente a Deus a glória!).

Autor: Igor Miguel

Casado com Juliana Miguel, pai do João e da Teresa Miguel. Teólogo, pedagogo e mestre em letras (língua hebraica) pela USP. Atua como especialista em educação cognitiva e gestor de projetos educacionais e humanitários com refugiados na SERVED. Pastor de missões na Igreja Esperança em BH/MG, professor do Curso Perspectivas, Instituto Bíblico Esperança e no Curso L'Abri de Espiritualidade e Fé Cristã.