Neocatolicismo

17 de novembro de 2017     0

Durante a Copa das Confederações, no ano de 2013, em um ambiente de grandes manifestações políticas da imprensa brasileira, em particular a Rede Globo de Televisão, cobria com grande riqueza de detalhes a chamada “Jornada Mundial da Juventude” que acontecia na cidade do Rio de Janeiro entre os dias 22 e 29 de julho. A imprensa brasileira e muitos católicos ficaram surpresos com a apresentação de um “catolicismo renovado” que remetia os cultos evangélicos durante os avivamentos dos anos 80 e 90. A jornada foi protagonizada por uma figura muito importante na promoção desse “novo catolicismo”: Jorge Mario Bergoglio, na ocasião, já há 4 meses exercendo seu pontificado como Papa Francisco. Uma figura popular e extrovertida, diferente da imagem publicizada de seu antecessor Bento XVI. O Papa Francisco apresentava uma personalidade carismática, acessível, modesta e ecumênica. A face evangelical desse neocatolicismo, que Francisco representa, agora assume um tom franciscano, apesar da formação jesuíta do “Papa Argentino”.

A Jornada Mundial da Juventude pode ser um importante marco do contato da comunidade brasileira, inclusive de observadores evangélicos, do que é um antigo projeto católico romano: a renovação evangelical da experiência católica. No Brasil, no senso comum, muita gente associa essa mudança interna na liturgia e na evangelização ao movimento carismático, em particular o movimento Canção Nova, porém, o projeto de “renovação do catolicismo” tem raízes históricas mais complexas. A meu ver, esse é um aspecto ainda desconhecido para muitos evangélicos no Brasil.

As primeiras missões evangélicas no Brasil, principalmente encabeçadas por igrejas históricas, sofreram muita oposição de católicos que ainda respiravam ares do Concílio de Trento (1545-1563) e da contrarreforma. Mais tarde, com a explosão pentecostal, regiões que antes eram hegemonicamente católicas começaram a ceder ante a força evangelizadora e o fervor pentecostal. Muitos católicos começaram a perceber que “Jesus” era algo vivo e pessoal na experiência e na maneira evangélica ou pentecostal de viver e pregar o cristianismo. Uma inevitável resistência católica produziria uma contrarreação evangélica, neste caso, o anticatolicismo, que assumiria um formato bizarro no neopentecostalismo, como em 1995, no evento em que Sérgio Von Helder, então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, chutava uma imagem da chamada “Nossa Senhora de Aparecida” em rede nacional. O evento tornou-se tão emblemático quanto as tensões entre catolicismo romano e um movimento evangélico negativamente representado por um neopentecostalismo fundamentalista.

É importante mencionar que no imaginário evangélico brasileiro, o catolicismo é geralmente associado ao que é chamado de “catolicismo devocionista”. O devocionismo é um catolicismo popular que valoriza a busca por milagres, peregrinações, romarias, promessas, intensa devoção idólatra à Maria e penitências. Era um formato quase medieval de catolicismo popular. Tomar essa forma de catolicismo como exemplo do que significa ser católico seria quase como dizer que o neopentecostalismo é a melhor referência do que é ser evangélico. Historicamente essa seria uma alegação inconsistente. A melhor referência para compreender o catolicismo em sua forma oficial é a partir de documentos ou registros oficiais da Igreja Católica Apostólica Romana (Icar), como concílios, encíclicas, sínodos, exortações, homilias ou declarações papais, e principalmente, o catecismo.

Mas como entender este cenário que aponta para o que é apelidado de neocatolicismo? Como entender esse fenômeno que começa a ter impacto significativo sobre a presença católica em países emergentes ou subdesenvolvidos? Como a missão evangélica poderia compreender melhor todas as mudanças percebidas?

Uma ajuda pode ser o trabalho do intelectual católico George Weigel, em seu livro Evangelical Catholicism (Catolicismo Evangelical), no qual basicamente traça as origens históricas deste movimento de renovação da Icar. De maneira resumida, tento organizar abaixo os principais momentos deste processo.

A infográfico abaixo dá uma ideia dos rumos da Icar, e percebe-se uma nítida, porém, suave transformação em ênfases na liturgia, na missão e na relação da Igreja com o mundo. Basicamente nos dois últimos séculos, a ICAR concentrou-se em dar uma resposta ao crescente secularismo em territórios tradicionalmente cristãos, em particular, a Europa. Também procurou reagir à perda de fiéis para o crescimento evangélico onde antes a ICAR era hegemônica.

O que é importante mencionar é que o esforço da Igreja, principalmente a partir do Vaticano II, está em superar os ressentimentos e o isolacionismo da contrarreforma, em particular, a Igreja Tridentina (orientada pelo Concílio de Trento). Tenhamos em mente que dificilmente o catolicismo romano, como o conhecemos hoje, teria a mesma forma e o rosto, se não houvesse a reforma protestante. Reagindo ou dialogando, é fato, a Icar vem sofrendo algum tipo de “reforma” interna permanente desde que Lutero afixou as 95 teses em Wittenberg. Porém, depois que a Igreja superou sua postura “reacionária” à reforma, ela começou a revisitar suas fontes clássicas e procurou redescobrir e reafirmar aspectos que se aproximam, em diversos aspectos, do que é o hoje chamado “catolicismo evangelical”.

Weigel insiste que foi no pontificado do Papa Leão XIII (1878-1903) que foram feitos os primeiros esforços no sentido de superar os entraves da Contrarreforma e do Concílio de Trento. Ele se inspirou nessa intenção de renovação que Pio IX convoca o Concílio do Vaticano I. Porém, o conteúdo desse projeto de renovação da Icar está mais explicitamente desenvolvido no II Concílio do Vaticano, principalmente em sua segunda fase, sob Paulo VI. Mas, definitivamente, os verdadeiros implementadores dessa nova face da Igreja foram João Paulo II e Bento XVI. De acordo com Weigel, são eles que darão uma interpretação autoritativa ao Vaticano II,
tratando-o como uma reforma que envolveria um resgate de elementos perdidos da vida da Igreja que estavam esquecidos ou marginalizados durante a contrarreforma. Esses elementos seriam finalmente retomados e iam se tornar, então, “instrumentos de renovação evangelical” 3 da Icar.

As decisões rumo à renovação eram tomadas em um ambiente de tensão entre forças teológicas internas e divergentes dentro da própria Icar. Dentre elas, destacam-se duas tendências principais: católicos progressistas e católicos tradicionais. Os primeiros, em formas extremas, inclinam-se a uma abertura liberal, são favoráveis a mudanças radicais na dogmática tradicional e estão mais alinhados à agenda moderna. Os últimos são nostálgicos, comumente resistem às mudanças do Vaticano II e tendem a apreciar a eclesiologia e a liturgia tridentina (contrarreforma). A saída, de acordo com Weigel, é reforçar o projeto de “catolicismo evangelical” que, no final, tem sido a característica do que é agora chamado de “neocatolicismo”.

O neocatolicismo, além de dar ênfase a “uma amizade com Jesus”, tem uma forte característica apologética, evangelizadora e missionária, como se observa na Exortação de Bento XVI:

“O Papa João Paulo II, na esteira de quanto já expressara o Papa Paulo VI na Exortação apostólica Evangelii nuntiandi, tinha de muitos modos lembrado aos fiéis a necessidade de uma nova estação missionária para todo o Povo de Deus. Na alvorada do terceiro milênio, não só existem muitos povos que ainda não conheceram a Boa-Nova, mas há muitos cristãos que necessitam que lhes seja anunciado novamente, de modo persuasivo, o Evangelho, para poderem assim experimentar concretamente a força do Evangelho […]. É frequente ver nações, outrora ricas de fé e de vocações, que vão perdendo a própria identidade sob a influência de uma cultura secularizada. A exigência de uma nova evangelização, tão sentida pelo meu venerado Predecessor, deve-se reafirmar sem medo.”

Fato é que o desafio missionário acima mencionado não é só para católicos, mas também para evangélicos. A Europa vive em pleno secularismo e experimenta o que é apelidado de pós-cristianismo. O tempo que se chama pós-modernidade deixa pouca coisa tradicional de pé e tende a um “relativismo dogmático” para usar um termo de Ratzinger. E, claro, vai pavimentando o caminho para que o secularismo chegue a lugares bem cristianizados como a América do Norte protestante ou a América Latina católica. A Icar e intelectuais evangélicos chegam a uma conclusão juntos: o ocidente pós-cristão, secularizado e plural, e o oriente islamizado exigirão um novomodo de evangelizar ante esses dois grandes desafios missionários. Curiosamente esse tem sido um ponto de convergência e cooperação entre católicos e evangélicos.

Um importante exemplo de coalizão missionária entre evangélicos e católicos na oposição ao secularismo ocidental é o famoso documento Evangelicals and Catholics Together (Evangélicos e Católicos Juntos) elaborado em 1994. Basicamente esse documento propunha uma unidade entre as duas Igrejas a partir da teologia do Novo Testamento e da doutrina da Trindade como plataforma teológica comum para o engajamento missionário e cultural do cristianismo americano. Esse documento é relevante, pois foi assinado e endossado por nomes importantes da teologia evangélica ortodoxa, como Charles Colson, Larry Lewis, Brian O’Connell, J.I. Packer, Os Guinness, Richard Mouw, Mark Noll, Thomas C. Oden e Pat Robertson. Claramente honesto quanto às diferenças entre católicos e evangélicos, o documento enfatiza convergências, como.

“Esperamos juntos que todas as pessoas tenham a fé em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Essa esperança exige o zelo missionário da Igreja[…] A Igreja está por natureza, em todos os lugares e em todos os tempos, em missão[…] A Igreja vive pela e para a Grande Comissão[…]. A causa de Cristo é a causa e missão da Igreja. Isso significa, proclamar a Boa-Nova que ‘Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo[…]’.” (tradução nossa).

A exemplo da coalizão americana, é necessário honestidade quanto às profundas diferenças entre católicos e evangélicos. Entretanto, é fato que, com a ênfase na centralidade de Cristo, a importância das Escrituras, a necessidade de evangelização e uma resposta adequada ao secularismo, o neoateísmo e o islamismo, a aproximação entre católicos e evangélicos parece quase inevitável. Portanto, é fundamental a superação do sentimento anticatólico por parte dos evangélicos.

A ironia é que enquanto católicos redescobrem a “transparência evangelical” como plataforma de evangelização, ou seja, a capacidade de comunicar de forma explícita, clara e compreensível, o Evangelho; evangélicos, por outro lado, se desvinculam do Evangelho em si seduzidos por teologias neopentecostais, ideologias políticas ou pelo liberalismo teológico. De fato, católicos honestos com o movimento da nova evangelização estão preocupados em afirmar Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Mas tal ênfase pode ser nitidamente enfraquecida com os ruídos doutrinários que podem comprometer o que católicos romanos chamam de Evangelho e salvação.

Um breve contraponto é importante aqui. Há relatos de oposição e perseguições pontuais de católicos romanos a missões evangélicas em algumas regiões do mundo. Também há relatos de oposição por cristãos católicos de tradições não romanas (Coptas, Ortodoxos Orientais e Ortodoxos Russos), é importante destacar. Porém, no caso católico romano, as tensões podem estar associadas a um devocionismo radical e á um apego à contrarreforma tridentina, principalmente, em alguns lugares da Europa. Evangélicos ainda terão sérias e honestas dificuldades com o catolicismo, principalmente por causa de sua forma “tríplice” de autoridade (Escritura, Tradição e Magistério), sua doutrina da justificação, o papado, a percepção da missa e dos sacramentos, a devoção mariana e outros temas muito sensíveis à nossa consciência reformada. Porém, apesar dessas tensões pontuais, como deveria ser a relação de evangélicos com a atual mudança de renovação no cenário católico, pelo menos, em nível conciliar?

Penso que o cenário exige que evangélicos sejam mais evangelicais. E tal evangelicalidade pode ser mais bem apreciada se superarmos nossa amnésia histórica. Evangélicos tendem à frouxidão quanto à própria tradição. Entretanto, nesse momento de intensa secularização, islamização e idolatria progressista, evangélicos precisam ser mais enraizados historicamente. Por outro lado, devemos ficar atentos e observar esse catolicismo que, com todas as reservas que temos, começa a se preocupar com a evangelização, a missão, o estudo das Escrituras e a resposta missionária ante a expansão do islã e do secularismo. Fato é que, enquanto evangélicos liberais e católicos progressistas cedem a ideologias abortistas, feministas, LGBT e à retórica revolucionária, católicos romanos e protestantes conservadores formam uma resistência a tais movimentos ideológicos.

Definitivamente evangélicos precisam ser mais evangélicos, o que pode significar ser mais missional, ter mais penetração cultural, pregar o Evangelho na medida em que nossa vida atrai as pessoas e legitima o anúncio. Curiosamente essa também é uma ênfase da “nova evangelização” católica: “A Igreja não cresce por proselitismo, mas ‘por atração’ (Papa Francisco)”. Um cristianismo que se entende “público” também precisa considerar que há uma convergência e pontos de contato interessantes entre a chamada “Doutrina Social da Igreja” (a concepção política da Icar) e a tradição política reformada, como observa o teórico político evangélico canadense David Koyzis. 10 Um discurso político cristão supra ideológico pode ser útil em tempos de polarização política. Mais uma vez, evangélicos podem aprender, e muito, com a tradição política dos católicos romanos, a qual sustenta que:

“À identidade e à missão da Igreja no mundo, segundo o projeto de Deus realizado em Cristo, corresponde ‘uma finalidade salvífica e escatológica que só pode ser plenamente alcançada no século futuro’. Justo por isso, a Igreja oferece uma contribuição original e insubstituível à comunidade humana com a solicitude que a impele a tornar mais humana a família dos homens e a sua história, e a pôr-se como baluarte contra qualquer tentação totalitarista, indicando ao homem a sua vocação integral e definitiva.”

Finalmente, uma igreja evangélica que pretende ser uma igreja missionária precisa estar atenta ao cenário do cristianismo como um todo. Nós evangélicos, de herança protestante, pentecostais ou históricos, independentes ou denominacionais, precisamos considerar seriamente que nossos missionários em campos secularizados ou de intensa perseguição podem encontrar entre seus melhores aliados irmãos católicos, há ocorrência disso na Europa e no Oriente Médio. Na prática evangelizadora, fronteiras confessionais ou denominacionais tornam-se mais fluidas. Que Deus nos ajude a discernir nosso tempo, e que possamos nos mover com o coração aquecido em uma grande coalizão pela pregação do Evangelho de Jesus Cristo. Sem abrirmos mão de nossa evangelicalidade, que nos esforcemos em mostrar ao mundo, a católicos romanos e mesmo evangélicos não regenerados, um Cristo nítido. E, também, evidenciarmos que não é possível ser evangelical sem: graça, fé, Cristo, a Escritura, a glória de Deus e, principalmente, a Trindade.

Autor: Igor Miguel

Casado com Juliana Miguel, pai do João e da Teresa Miguel. Teólogo, pedagogo e mestre em letras (língua hebraica) pela USP. Atua como especialista em educação cognitiva e gestor de projetos educacionais e humanitários com refugiados na SERVED. Pastor de missões na Igreja Esperança em BH/MG, professor do Curso Perspectivas, Instituto Bíblico Esperança e no Curso L'Abri de Espiritualidade e Fé Cristã.