O mandato cultural

17 de julho de 2017     0

Desde o primeiro encontro de Lausanne, em 1974, missiólogos operam a partir da noção de que uma distinção importante deve ser feita entre missão e evangelização, porém, é preciso manter a profunda relação entre ambas e a prioridade da evangelização. Nesse caso, a missão deveria ser entendida de forma mais abrangente, relacionando-se à própria “Missão de Deus” (Missio Dei) que envolve a glorificação de Deus no mundo.

A glorificação de Deus é o testemunho sobre quem Ele é e Sua revelação na criação, nas Escrituras e Sua obra redentora. Tudo que o cristão faz que expressa os atributos, o caráter e a natureza de Deus está associado à missão do próprio Criador. Logo, a Missão cristã abrange o envolvimento intencional do discípulo de Cristo em exibir a glória de Deus em suas habilidades técnicas, intelectuais, morais, culturais e, principalmente, evangelizadoras. Claro que isso exigiria uma profunda compreensão de como Cristo – que é “Senhor sobre tudo” (Abraham Kuyper) – afeta os diversos papéis sociais que um discípulo Seu pode exercer no mundo.

Por outro lado, a fidelidade do cristão ao Mandato Cultural, ou seja, à ordem divina para operar na cultura – “cultivar o jardim” (Gn 2.15) – não pode entrar em conflito com a Grande Comissão (Mt 28.19). Pelo contrário: deve cooperar com ela. Jesus disse claramente no Sermão do Monte que ser “luz do mundo” significa que os homens veriam as nossas obras e glorificariam a Deus por isso (Mt 5.16). Abraham Kuyper, referindo-se ao testemunho da Igreja, dizia: “Aqui está uma cidade edificada sobre o monte, a qual cada homem pode ver a distância. Aqui está um sal santo que penetra em todas as direções reprimindo toda corrupção. E mesmo aquele que ainda não assimila a luz superior ou talvez feche os olhos para ela é admoestado com igual ênfase e em todas as coisas a dar glória ao nome do Senhor.”


Essa graça que redunda em obras vem sendo, desde sempre, uma grande plataforma para legitimar a pregação e o discipulado evangélico.


Dentre outras razões, nossa salvação também se destina a nos tornar pessoas frutíferas ou operosas. Jesus disse que quem permanece Nele “dá muitos frutos[…], pois sem Ele nada podemos fazer” (Mt 15.5). Na mesma direção, o apóstolo Paulo enfatiza que, mesmo a salvação sendo pela graça e não pelas obras, ela é para boas obras (Ef 2.8-10). Era justamente essa conexão entre a vocação para “fazer algo” a partir de uma vida salva pela graça que fazia com que cristãos de Jerusalém “contassem com a simpatia de todo o povo” (At 2.47). Essa graça que redunda em obras vem sendo, desde sempre, uma grande plataforma para legitimar a pregação e o discipulado evangélico. Portanto, a fidelidade ao Mandato Cultural legitima a obediência à Grande Comissão.

Em tempos de crise econômica mundial, a Igreja Global está sendo ainda mais desafiada a mudar algumas ênfases em seus modelos missiológicos. Sem desprezar o missionário clássico, sabemos que há uma necessidade profunda da presença cristã no mundo associada a competências profissionais ou culturais. Em um mundo onde se valoriza cada vez mais o capital intelectual, cristãos deveriam fazer projetos de carreira cuja formação profissional auxiliaria comunidades ou locais no mundo. Assim viabilizaria a penetração do Evangelho em contextos impenetráveis para um missionário clássico. Já se fala de “quarta onda missionária”, em que missionários são encorajados a integrar a missão evangelizadora com uma profissão.

Por outro lado, não é que tais profissões serviriam apenas como uma manobra estratégica para comunicar o Evangelho. Lembre-se: o sucesso da Grande Comissão nesse caso depende de uma fidelidade autêntica ao Mandato Cultural. Não é simplesmente ser um profissional para que o Evangelho seja oportunizado. Para exemplificar, um pedagogo cristão com conhecimentos avançados no campo educacional a serviço de uma ONG internacional poderia desenvolver projetos educacionais inovadores em regiões com altos índices de analfabetismo. À medida que se relaciona com pessoas, instituições, comunidades e agentes políticos, ele dá testemunho de Deus e do Evangelho.

Imagine como um comerciante cristão com conhecimentos mercadológicos adequados poderia fazer uma prospecção em determinada comunidade percebendo demandas comerciais e sociais. Paralelamente ele poderia abrir um empreendimento que beneficie a comunidade, criando postos de trabalho e superando cenários de subdesenvolvimento. A partir de sua “presença fiel”, na qual Hunter entende que se relaciona com a participação cristã ativa na vida cultural e pública, evitando dois extremos: o triunfalismo e tampouco o isolamento, a relevância socioeconômica de sua atuação, sua visão de mundo e seu testemunho cristão legitimam a pregação do Evangelho, que deve ocorrer de forma orgânica e relacional em vários níveis.


Considere o que vai acontecer quando todos nós começarmos a olhar para nossas profissões e os campos de especialidade não meramente como meios de lucro nem como projetos de carreira em nosso contexto, mas como plataformas para proclamar o Evangelho.


É encorajador e inspirador pensar que o Espírito Santo pode estar conduzindo sua Igreja a adotar uma postura adequada diante dos desafios de seu tempo. Como observa David Platt: “Considere o que vai acontecer quando todos nós começarmos a olhar para nossas profissões e os campos de especialidade não meramente como meios de lucro nem como projetos de carreira em nosso contexto, mas como plataformas para proclamar o Evangelho. Considere o que acontece quando a igreja não apenas enviar missionários tradicionais ao redor do mundo, mas homens e mulheres de negócios, professores e estudantes, doutores e políticos, engenheiros e técnicos que vão viver o Evangelho em contextos em que um missionário tradicional nunca poderia ir.”

A noção de missionários bivocacionais, termo que considero ainda impreciso, pode ser mais bem trabalhada quando se explora a relação entre “missão” e “evangelização” e, particularmente, entre Mandato Cultural e Grande Comissão. Enfim, é importante mencionar que cristãos não trabalham para evangelizar; eles evangelizam uma vez que trabalham e trabalham à medida que evangelizam. Fidelidade e excelência profissional cristã tornam-se verdadeiras “plataformas” para a proclamação do que Cristo de fato realizou em Sua vida, morte, ressurreição e ascensão e vai consumar em sua vinda.

Autor: Igor Miguel

Casado com Juliana Miguel, pai do João e da Teresa Miguel. Teólogo, pedagogo e mestre em letras (língua hebraica) pela USP. Atua como especialista em educação cognitiva e gestor de projetos educacionais e humanitários com refugiados na SERVED. Pastor de missões na Igreja Esperança em BH/MG, professor do Curso Perspectivas, Instituto Bíblico Esperança e no Curso L'Abri de Espiritualidade e Fé Cristã.