O que define uma igreja missional?

Por Igor Miguel     5 de abril de 2017     0

As características mais marcantes de uma vida missional que aponta para Cristo justamente por estar Nele

O conceito de “Igreja Missional” é relativamente recente. Uma terminologia nova que reflete o resgate de noções clássicas aplicadas principalmente na missão em realidades urbanas, pós-cristãs ou de grande resistência ao cristianismo.  A noção de missionalidade enquanto paradigma missiológico é perfeitamente adequada em vários contextos, mas tem sua origem em contextos urbanos onde o individualismo, a competição, o consumismo e o secularismo marcam de maneira evidente os ritos sociais e culturais.

Porém, de maneira muito simples, a noção de Igreja Missional refere-se simultaneamente a um modo de “ser” igreja e de “fazer” missão.  Neste caso, ser uma igreja mais presente entre as pessoas e atuante de maneira relacional e pessoal na sociedade e nos ambientes ordinários. Refere-se ao modo como cada membro da igreja local encara e vive sua vida integrada à missão de Deus no mundo.  A igreja que se mistura sem ser absorvida. Cristãos que se relacionam autêntica e intencionalmente com as pessoas, fazendo com que Cristo seja apresentado a partir da concretude de suas vidas e testemunho.

Ser missional significa que, mais do que levar as pessoas à igreja para ouvirem de Cristo, Cristo é levado até as pessoas por meio da presença da igreja no mundo e na vida em sociedade. Neste caso, o principal lugar em que o evangelho é comunicado aos não-cristãos não é no culto público – o que eventualmente pode acontecer quando se considera que o púlpito evangélico é cristocêntrico e centrado no Evangelho – igrejas missionais enviam, preparam e inspiram cristãos a serem autênticos e plenamente cristãos em suas vidas comuns.  A partir disso, pessoas não-cristãs terão contato com a realidade de Cristo na medida que cristãos se relacionam e lhes comunicam o Evangelho.

Cristãos missionais se tornam pessoas altamente interessadas em pessoas. Eles oportunizam encontros, relacionamentos, convidam pessoas para suas casas, se relacionam com o barbeiro, o tatuador, a manicure, o taxista, a professora, a médica, o açougueiro, o caixa do banco ou supermercado e colegas de trabalho. Desta forma, a evangelização acontece de maneira orgânica e intencional. Orgânica pois são cristãos tão afetados pelo evangelho que prega-lo lhes é natural, e é parte de quem elas são. Como suas vidas transbordam de Cristo, inevitavelmente seu estilo de vida refletirá esta realidade. Com a dose certa de ensino e discipulado, esses cristãos comunicarão o evangelho de maneira inteligente, pessoal, contextualizada e sábia aos que estão a seu redor.

Uma vida missional é contagiante e tem relativa eficiência no testemunho pois quebra estereótipos sobre o que significa ser cristão e sobre o que significa evangelizar. Pessoas não-cristãs têm um imaginário distorcido sobre o que significa ser cristão, infelizmente por impressões e mau testemunho que são veiculados em redes sociais e na mídia. Por essa razão, o ser missional é uma excelente estratégia missionária e evangelizadora em contextos em que as pessoas se tornaram cínicas em relação ao cristianismo. O testemunho pessoal é altamente eficiente. A dimensão intencional, refere-se ao fato de que a partir de relações reais e um interesse profundo pelas pessoas, cria-se condições para trazer outros para a luz de Cristo.

Por outro lado, a noção de missionalidade faz com que cristãos descubram uma maneira alegre, natural e encorajadora de dar testemunho de Cristo e evangelizar.  Entretanto, é fato que, cristãos só podem ser missionais se a igreja local também se envolver em prepará-los para uma vida missional. Isso significa que a igreja deve elaborar programas e pregações que facilitem cristãos a se tornarem cheios do Evangelho, cultural e teologicamente preparados para comunicarem Cristo de maneira que Ele atinja as tensões, dilemas e questões contemporâneas apresentadas pelas pessoas. 

E, finalmente, ser uma igreja missional implica em interesse por gente, evitando-se o isolamento cultural e social. Exige um “ser igual” e ao mesmo tempo “diferente”.  Cristãos não podem ser estranhos para além da estranheza e do escândalo do evangelho. Mas, também não podem ser iguais ao ponto em que as pessoas não percebam a singularidade de uma vida afetada por Cristo. Esta é a linha tênue entre o isolamento e o mundanismo. Por estarem centrado em Cristo e no seu Evangelho, são desafiados a se manterem longe desses extremos.

Por mais que reconheçamos a necessidade de missionários formais, um fato bíblico e histórico é que o cristianismo cresceu no mundo principalmente por causa do trabalho de cristãos comuns, gente normal. E, isso, justamente por causa da capacidade de penetração social e cultural dessas pessoas:  

“O crescimento explosivo do cristianismo inicial ‘aconteceu, na realidade, por meio de missionários informais’, ou seja, cristãos leigos – não ordenados e evangelistas não-treinados – continuaram a missão da igreja não por intermédio da pregação formal, mas por conversas informais: ‘em casas e adegas, em caminhadas, junto à barracas de mercadorias […]’ , faziam a obra com naturalidade e entusiasmo.”

Enfim, ser missional é redescobrir a igreja local como uma importante enviadora de missionários ordinários, cristãos comuns, mas que são cheios do Espírito Santo, educados e discipulados, para fazerem menção de Cristo, justamente porque estão saturados dele. Às vezes, colegas de ministério perguntam: por que membros de nossas igrejas evangelizam pouco? Talvez a resposta seja: porque eles não foram suficientemente evangelizados.  Gente cheia do Evangelho evangelizará!

Autor: Igor Miguel

Casado com Juliana Miguel e pai de João Miguel. Teólogo, pedagogo e mestre em Letras pela USP. Coordenador pedagógico da ONG OMCV e pastor na Igreja Esperança, em Belo Horizonte - MG.
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