Profissionais Missionais: relação, resistência, sacerdócio e presença

2 de outubro de 2017     0

Há uma crescente tendência nos fóruns sobre missiologia alguma conversa sobre a integração entre profissão e missão. No Brasil, particularmente, não há como ignorar a importância de encontros como o VOCARE que insistem nesta abordagem, e o fazem com louvor. E, de fato, deve-se considerar que esta não é simplesmente uma “moda missionária” ou uma adaptação por causa da crise econômica brasileira, tendo em vista a “sustentabilidade do ministério missionário”.  De fato, não se pode desconsiderar as forças culturais que acabaram pressionando as coisas nessa direção, mas não há dúvida que caminhamos para um tempo em que o princípio de missionalidade pela via profissional tem se tornado uma ferramenta fundamental em vários sentidos. Porém, gostaria de tratar esta relação entre missão e mandato cultural, que se sintetiza bem no que é chamado hoje de missionário bivocacional. Alguns princípios teológicos precisam ser considerados quando se pensa na relevância do profissional missional para nossos dias:

    • Encarnacionalidade;
    • Resistência ao Secularismo;
    • Universal Sacerdócio dos Santos;
    • Princípio da Presença Fiel;

(1) Encarnacionalidade

Me perdoem pelo neologismo, mas de fato quando penso em um missionário que conseguiu integrar sua profissão com a missão, penso em um cristão ordinário consciente de sua identidade cristã, que se engajou na tarefa de dar testemunho de Cristo, pelo simples fato de ser cheio de Cristo. E, por ser cheio de Cristo, o Salvador se transparece  naturalmente pela vida e ações operadas por esse cristão. Não há uma distância artificial entre o evangelho pregado e a vida vivida. Vida profissional e cultural formam uma plataforma que conecta o cristão missional com a comunidade local, ao mesmo tempo que se torna o contexto adequado para o anúncio do Evangelho.

Como o Verbo se fez carne e habitou entre nós como Cristo, agora Cristo habita em cada cristão pelo Espírito. E, assim, Jesus se torna presente na vida encarnada de cada cristão. Por isso todo cristianismo que é desencarnado, ou seja, sem integração com a concretude da vida, é simplesmente anti-cristão, pois não se coaduna com a própria narrativa do Evangelho, que é a presença em carne de Cristo no mundo.

(2) Resistência ao Secularismo

O paradigma missional/encarnacional é também uma forma de resistência ao secularismo. Devemos entender aqui o secularismo como um movimento ideológico complexo que, por vários fatores, promove uma cultura ou uma sensação de que Deus é dispensável para a vida humana comum. Na vida pública, na rotina, no contexto cultural, político e social, Deus é desnecessário. Reservando-se à razão ou aos desejos do “self” a tarefa de determinar o sentido último da vida humana. Assim, o secularismo quando incorporado pelo cristão, faz com que ele viva uma vida dividida, um tipo de esquizofrenia espiritual, em que fica flutuando entre vida sacra e vida profana. Ficando a primeira restrita à vida da igreja local e/ou ao devocional, enquanto nas outras esferas da vida, Deus é simplesmente ignorado.

Cristãos intoxicados pelo secularismo se tornam ateus práticos. Pois, como passam grande parte de suas vidas realizando tarefas comuns, como trabalho e estudo, e por sua prática, lidam com tais atividades como se Deus fosse dispensável, logo, alguma coisa se tornará soberana sobre estes “campos” da vida em que Deus fora banido. Tragicamente  eles caíram em uma espécie de “idolatria cultural”, em que a razão, os afetos, a cultura, sonhos de consumo e sucesso se tornaram “senhores” sobre suas vidas.

A missionalidade culturalmente engajada subverte o secularismo quando reconhece a extensão e as consequência da afirmação cristã bíblica de que Jesus Cristo é o Senhor. Tal confissão de fé é levada a sério.

Afirmar o senhorio de Cristo sobre toda a existência humana está no fundamento da Grande Comissão, antes do “ide e fazei discípulos” está o “todo poder me foi dado” de Jesus. O senhorio de Jesus significa que na medida em que o cristão vive por antecipação a realidade do Reino de Deus, sua vida expressa a realidade escatológica no tempo presente. E, claro, isso não tem nada que ver com um triunfalismo ingênuo que tem como ideal o estabelecimento de uma “sociedade cristã”, mas com a ideia de que o Reino vem de Deus, mas que até lá, nos foi dada a tarefa de anunciar o Evangelho do Reino até que ele venha. Como Jesus é uma invasão do tempo vindouro no tempo presente, como argumenta George Ladd, da mesma forma, cada cristão presentifica em gestos e ações o mundo que virá. E, que mundo é este? Um mundo onde a morte, a doença, a injustiça, a feiura e a violência darão lugar ao shalom do Novo Céu e da Nova Terra.

(3) Universal Sacerdócio dos Santos

Quando cristãos abraçam a missionalidade encarnacional, como vimos, abraçam também uma vida sob o Reino de Deus, reconhecendo o senhorio total de Cristo sobre suas vidas. Desta forma, vale muito recorrermos a um princípio bíblico valorizado pela reforma protestante: o “universal sacerdócio dos santos”.

Os sacerdotes israelitas, conforme descrito pela Bíblia Hebraica, eram indivíduos que viviam no limiar entre eternidade e terrenidade. Eles se movimentavam entre santo-dos-santos e o arraial das tribos de Israel. Os sacerdotes levavam o povo a Deus e Deus ao povo. Penso que missionalidade fundamenta-se neste princípio sacerdotal da dupla representatividade.

Os cristãos precisam ter consciência que exercem sacerdócio em dimensões da vida e determinados círculos sociais que muitas vezes estão completamente ausentes de presença cristã. Pense por exemplo em empresas de alta tecnologia, linhas de produção, grupos de teatro profissional, grandes corporações financeiras, em contextos políticos, nas forças armadas, na escola pública, na universidade, no clube de xadrez ou RPG. Não importa, cristãos precisam levar Cristo e o Evangelho para contextos não alcançados. E, neste caso, a missionalidade abre uma perspectiva de que não há apenas “etnias não alcançadas”, mas dimensões, esferas, tribos culturais e contextos não alcançados.

(4) Presença Fiel

Completaram-se cinco anos da publicação do livro de James Davison Hunter, To Change the World (Mudar o Mundo), apesar do título ousado, o autor propõe um caminho alternativo entre basicamente duas tentações do cristão ante o mundo cultural: o isolacionismo e o triunfalismo.

No casa da primeira tentação, o cristão se isola de qualquer tipo de participação na vida social e cultural, alegando que a esfera pública não é da alçada da graça ou para se evitar contaminação com o “mundo”. Geralmente, em muitos casos, o cristão acaba vivendo um dualismo (duas dimensões irreconciliáveis) por causa do já mencionado secularismo. Já, o triunfalismo, acomete muitos cristãos que em um idealismo ufanista acreditam que podem, por mera força missionária ou cultural, impor o cristianismo ou uma cultura cristã sobre a sociedade.

Hunter propõe uma outra via. De acordo com ele, o cristão precisa exercer presença fiel. Ou seja, insistir em viver integral e plenamente como cristão onde quer que Deus o tenha colocado. Sem dicotomias, sem esquizofrenias, simplesmente fazendo o que deve ser feito, mas de tal maneira, que a sabedoria cristã e sua identidade em Cristo possam afetar o modo como trabalha, vive e produz cultura. Assim, sua vida torna-se evidência viva, mas também, o modo como faz o que faz dá testemunho da plausibilidade do cristianismo que vive. Isto remete a frase clássica de C.S. Lewis: “”Eu acredito no cristianismo como acredito no sol, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todo o resto.” Neste caso, cristãos que vivem sob o senhorio de Cristo, exercem sua missionalidade de maneira despretensiosa, mas não ingênua; corajosa, mas não arrogante; engajada, mas não mundana.

(5) Profissões a Serviço

Evangélicos precisam ser mais criativos sem abrir mão do evangelho. Quantos jovens vocacionados estão neste momento com o coração aquecido pela causa missionária. São jovens solteiros, que já se formaram,  já possuem boa experiência profissional e sabem um outro idioma. Este é um perfil de alta flexibilidade para engajamento missional em outro contextos culturais. Neste caso, o desafio é que se eduque teológica e missiologicamente esses jovens, ao mesmo tempo, que aprofundam seu cristianismo na experiência de uma comunidade de fé centrada no Evangelho. Entendo, por alguma vivência com o pastoreio vocacional, que missionários que experimentam vida congregacional saudável, se tornam missionários mais saudáveis. Não são apenas enviados pela igreja, eles levam a igreja com eles.

Essa combinação de fatores prepara tais indivíduos para encarar a tarefa dada por Jesus. Não estou dizendo que só os que se encaixam neste perfil serão missionários. Não! O que estou afirmando é que temos muitas pessoas neste perfil e que elas devem ser apoiadas e encorajadas a aceitarem o desafio missional de irem a culturas e contextos sociais não alcançados pelo Evangelho como profissionais ou acadêmicos e lá criarem vínculos que potencializam o testemunho do Evangelho.

Enfim, como vimos, o conceito de missionalidade vai para além da noção de bi-vocacionalidade. Neste caso, há uma única vocação: viver uma vida fiel ao senhorio de Jesus Cristo. Vocação que se expressa na integração sábia e evangélica entre o que cremos, amamos e fazemos. Sendo estas três dimensões afetadas e saturadas pela realidade de um Deus que é Criador, Salvador e Senhor, com nos foi revelado pela Evangelho. E, por isso, tem que ser anunciado e testemunhado com palavras e ações. E, que cada cristão, deve considerar seriamente que suas competências culturais e profissionais podem ser chaves culturais que abrirão portas para que o Evangelho chegue em contextos antes não-imaginados. Cristãos que abraçaram a natureza encarnacional do Evangelho, que resistem o secularismo, que exercem sacerdócio no mundo e que são fiéis à fé cristã onde foram plantados pelo Senhor.

Autor: Igor Miguel

Casado com Juliana Miguel, pai do João e da Teresa Miguel. Teólogo, pedagogo e mestre em letras (língua hebraica) pela USP. Atua como especialista em educação cognitiva e gestor de projetos educacionais e humanitários com refugiados na SERVED. Pastor de missões na Igreja Esperança em BH/MG, professor do Curso Perspectivas, Instituto Bíblico Esperança e no Curso L'Abri de Espiritualidade e Fé Cristã.