Um olhar missiológico sobre a cultura das grandes cidades

Por Igor Miguel     12 de maio de 2017     0

O foco nas cidades era uma antiga estratégia missionária utilizada pelo apóstolo Paulo

Timothy Keller, em seu livro “A Igreja Centrada” (recentemente traduzido para o português), realiza um grande empreendimento missiológico, principalmente ao tratar da missão urbana. Há quem ache a recente ênfase na missão urbana algo ufanista, provincial ou resultado de um discurso elitizado. O próprio Keller trouxe a questão no último encontro do Movimento Lausanne em Cape Town, na África do Sul, em 2010 com a abordagem: a missão precisa priorizar os grandes centros. Obviamente que a proposta de Keller em nenhum momento despreza a importância  de missões interioranas ou tribais. Sua defesa baseia-se em números inegáveis. Segundo a ONU, há um crescimento exponencial de pessoas residindo em cidades. Em 1950, 750 milhões de pessoas viviam em cidades. Agora, em 2015, esse número deu um salto para quase 4 bilhões. Nesse ritmo, em 2050, 66% da população mundial vai viver em alguma grande cidade. Inevitavelmente a missão urbana não é uma opção secundária. Ela já é 54% da missão mundial e será mais da metade da tarefa missionária em uma ou duas décadas. Uma missiologia urbana não é um luxo; é um fato. Há realmente a necessidade de uma missiologia urbana? Claro que essa objeção é ingênua! Basta observar a complexidade da cidade moderna. Como se sabe, ela não tem somente uma identidade cultural; é globalizada suas fronteiras simbólicas são indefinidas. O fluxo de pessoas e de cidades conectadas intensifica e relativiza particularidades. Se, por um lado, a cidade acolhe diversas culturas, línguas e etnias, ela também exige certa “urbanidade”, que é comum em quase todas as grandes cidades globais. Há ritos, serviços, mobilidades e tempos que são inerentes às cidades. Todas têm virtudes e problemas relativamente parecidos.

A efervescência cultural é uma virtude da cidade, pois nela se encontram os grandes centros acadêmicos e uma variedade de serviços e produtos. Por outro lado, traz consigo sérios problemas socioculturais e existenciais: o individualismo, a solidão, a desigualdade, a violência, a pobreza, o desenraizamento, a secularização, a segregação e problemas ambientais.

“Há realmente a necessidade de uma missiologia urbana? Claro que essa objeção é ingênua! Basta observar a complexidade da cidade moderna”

Na cidade se experimenta um tipo de “estreitamento” existencial. Ela oferece muitas atrações; a vertigem produzida por essas experiências cega o indivíduo urbano; ele não consegue perceber nenhuma beleza nem sentido para além de seus “muros”. Não se olha para o céu na cidade secularizada. Há algo em sua dinâmica que tende a aprisionar seus moradores para a concretude da vida. Como observa Charles Taylor, o secularismo vende a noção de que não há nada para além do “aqui e agora”, e como o ser humano é obstinado por sentido, ele vai tentar encontrar algo de significativo nas ilusões oferecidas pela cidade. Keller ainda observa que as grandes cidades globalizadas têm um poder formativo e cultural extraordinário. Várias tendências culturais são influenciadas por movimentos dentro de grandes cidades. Pense no movimento Black Bloc , uma modalidade de manifestação política que começou na cidade americana de Seatle (1999), foi utilizada na ocupação de Wall Street (2011) e foi reproduzido no Brasil (2013), ou seja, movimentos que começam em grandes centros podem ter repercussão global.

O foco nas cidades era uma antiga estratégia missionária utilizada pelo apóstolo Paulo. Ele visitou as principais cidades do mundo antigo como Jerusalém, Antioquia, Atenas e Roma. Hoje o poder de nossas metrópoles modernas é enorme, conectadas, elas tornam a vida social e cultural cada vez mais “líquida”. Assim sendo, Cristo  precisa ser apresentado nos grandes centros de forma criativa. Missionários urbanos precisam ler a cidade, compreender seus ritos, sua linguagem e angústias. Mostrar que Jesus reconcilia a existência com Deus.

A missão urbana implica abrir janelas para a eternidade em uma realidade cinza e obscurecida pelos ídolos que a cidade promove. A tarefa é complexa, exige bom repertório cultural, oração e a apresentação da verdade evangélica em diversas linguagens, de modo que a(s) cultura(s) urbana( s) seja(m) alcançada(s) pelo Cristo que chorou por uma cidade (Mt 23.37).

 

Autor: Igor Miguel

Casado com Juliana Miguel e pai de João Miguel. Teólogo, pedagogo e mestre em Letras pela USP. Coordenador pedagógico da ONG OMCV e pastor na Igreja Esperança, em Belo Horizonte - MG.
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