A missão da música

26 de julho de 2017     0

É impressionante o poder que a música tem de tocar o ser humano. A música acalma, mas também agita. A música alegra, mas pode também deprimir. Da mesma forma, a música tem como uma de suas características mais fantásticas o poder de mobilização de pessoas e grupos. Lembro-me bem da música “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, que marcou uma geração inteira com um sentimento de luta pela democracia em pleno regime ditatorial no Brasil. Mesmo garoto, quando escutávamos os acordes da canção, o peito se enchia de um certo patriotismo ao se cantar “Vem vamos embora que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora e não espera acontecer”.

Geralmente, quando o assunto música é tratado no ambiente cristão evangélico, logo pensamos em louvor e adoração a Deus, o que é mais que correto. Cantamos para expressar a Deus sua grandeza e soberania, e aos homens seu caráter e poderosas obras. Adoramos a Deus de diversas formas, mas de forma especial com canções bem trabalhadas e acompanhadas por música de qualidade. Louvar a Deus com letras doutrinariamente tortas e música pobre é uma ofensa à sua Pessoa.


Diferente da música dita secular, as canções cristãs não funcionam apenas como um ativador de emoções. Suas letras bíblicas podem tanto proclamar a glória de Deus quanto falar da realidade da vida do discípulo de Jesus.


Mas há outros fatores ligados à música que passam muitas vezes despercebidos. O primeiro é a capacidade de ensino. Diferente da música dita secular, as canções cristãs não funcionam apenas como um ativador de emoções. Suas letras bíblicas podem tanto proclamar a glória de Deus quanto falar da realidade da vida do discípulo de Jesus. Entretanto, o que vemos em nossa geração é uma grande escassez de músicas cristãs, tanto para meditação como músicas para o louvor congregacional, que falam da missão do crente de levar o Evangelho às nações. Até vemos uma ou outra música que fala das nações, mas algo distante, como nós aqui e elas lá. Acabamos contando, ainda que de forma inconsciente, apenas com a oração para alcançá-las. Creio que precisamos recuperar o ensino de Missões através dos nossos cânticos, da mesma forma que ele deve estar presente em nossos púlpitos.


A música, quando executada com um propósito sincero e com a razão correta, tem um enorme poder mobilizador.


Outro fator que acredito que subestimamos quando se fala de música na Igreja é a sua capacidade de mobilização. A prática de cantar hinos não é restrita ao ambiente eclesiástico. Nações cantam seus hinos, torcidas entoam os hinos de seus clubes, e até ministérios e sociedades internas das igrejas costumam ter seus próprios hinos. Durante a Copa das Confederações (depois repetido na Copa do Mundo), não houve brasileiro que não se emocionasse ao ver o estádio cantando o Hino Nacional à capela, quando a execução oficial havia terminado. Alguns chegaram a creditar a isso uma entrega extra da seleção naquela Copa. A música, quando executada com um propósito sincero e com a razão correta, tem um enorme poder mobilizador. Quando cantamos, alinhamos nossas emoções com aquilo que está sendo cantado, potencializando as possibilidades de resposta ao propósito desejado. Como no caso do ensino, músicas cristãs com uma boa teologia de Missões têm a capacidade de mobilizar a Igreja para o seu chamado geral de proclamar as boas novas, bem como o chamado específico de cristãos para a obra transcultural. Negligenciar isso é abrir mão de uma poderosa ferramenta de mobilização do Corpo de Cristo.


Não seguimos a canção. Seguimos o nosso Senhor, cantando sua glória e sua vitória entre as nações.


Músicas que falam do chamado do crente precisam ser mais constantes em nossas igrejas. Quem ouve os versos da música “O Chamado”, de Jorge Camargo, Vencedores por Cristo, dizendo: “Alguém um dia ouviu o chamado / Creu de coração aberto e foi”. Não pode ter outro sentimento a não ser a vontade de se envolver em Missões Transculturais. “E outros ficaram com o compromisso / De apoiar, de orar e dizer: vai”. Se parafrasearmos o dito do Senhor de que a boca fala do que está cheio o coração, não seria errado dizer que cantamos aquilo de que está cheia a nossa alma. Quanto mais a enchermos de Missões, mais a cantaremos, e à medida que cantamos sobre o nosso chamado, ensinando e mobilizando através de nossa música, Deus irá nos envolver mais e mais com sua vontade para nossas comunidades. Não seguimos a canção. Seguimos o nosso Senhor, cantando sua glória e sua vitória entre as nações.

Autor: Luís Nacif

Pastor de missões da Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte - MG