O aspecto humano da missão

17 de julho de 2017     0

“Casa de ferreiro, espeto de pau”. “Santo de casa não faz milagre”. Os ditados populares nem sempre refletem verdades bem-fundamentadas, mas esses dois expressam muito bem a experiência cotidiana, seja ela alimentada por fatos, seja por preconceitos. E aquele que é alvo desses preconceitos logo se identifica com outro texto bíblico, dizendo: “O profeta não tem honra na própria casa” (Mc 6:4). Com isso, todos perdem, tanto o que não dá honra, quanto o que se faz de vítima.

Quando lidamos com o processo missionário – vocação, preparo, envio e manutenção –, muitas vezes esbarramos em obstáculos logo no início. Isso acontece muito provavelmente devido às barreiras que nós mesmos criamos. Quando lemos as biografias de grandes homens e mulheres de Deus que dedicaram suas vidas ao Senhor em missões, encontramos nomes como Charles Studd e Sophia Müller e muitos outros. Diante dos registros históricos e de tudo que se pode encontrar nos livros, pensamos logo no estereótipo da pessoa madura, solidamente espiritual, sem medos, dúvidas nem mesmo pecados.


A verdade é que esses “supermissionários” só existem em nossa imaginação e por um motivo simples: não existe crente nenhum que seja assim.


Precisamos admitir que muitas vezes passa pela nossa mente aquela visão do missionário com padrões nórdicos, alto, fisicamente forte para enfrentar as intempéries do campo e emocionalmente estável a ponto de só chorar de quebrantamento diante das almas perdidas. Se solteiro, não sofre com carências nem desejos sexuais. Se for casado, é extremamente amoroso com o cônjuge, e os filhos são protótipos melhorados do famoso “Bebê Johnson”. Esses missionários concebidos no consciente coletivo de boa parte da Igreja naturalmente são evangelistas, pastores, mestres e servos prontos para destilar uma refinadíssima espiritualidade em cada ato ou palavra. A verdade é que esses “supermissionários” só existem em nossa imaginação e por um motivo simples: não existe crente nenhum que seja assim.

O Senhor chama para o campo missionário gente como os demais. Portanto, considerar que cristãos mais espirituais sejam separados por Deus para tarefas mais complexas é separar o povo de Deus em castas; é dizer que alguns foram chamados para o campo transcultural porque Deus os aprovou por serem mais capacitados. Não há nada menos bíblico e mais nocivo ao conceito da graça de Deus e ao processo de lapidar aquele que tem chamado, pois ninguém recebe um pacote de “unção missionária” ao sentir de Cristo um chamado para o campo.

Como crentes normais, os vocacionados convivem na dualidade de se verem cheios do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, sentirem desejos pecaminosos completamente contrários a essa realidade espiritual de que somos habitação do Espírito Santo (1Co 6.19). Essas tensões tendem a se potencializar à medida que se afastam da proteção do ambiente da igreja local para viver em campos com um clima que mais agride que incentiva sua espiritualidade. Por isso, os missionários precisam ser bem preparados espiritual e emocionalmente para enfrentar essas situações. Se encararmos os chamados e vocacionados para missões como sendo automaticamente ungidos para isso, deixaremos de lado a importante tarefa de preparo que é, antes de tudo, da igreja local.


Por isso, os missionários precisam ser bem preparados espiritual e emocionalmente para enfrentar essas situações.


A visão distorcida do chamado missionário é evidenciada quando se compara à usual preparação para o trabalho pastoral com a do missionário transcultural. Quando uma pessoa procura a liderança de sua igreja dizendo que deseja “ser pastor”, um processo é iniciado. Logo o “candidato” é analisado, arguido e encaminhado para um envolvimento ministerial parar ser observado e posteriormente enviado para um seminário. Depois de graduada, a pessoa ainda é colocada ao lado de outro pastor para ser acompanhada até a sua ordenação (com certeza, esse processo é mais curto em algumas denominações). Se o preparo de alguém que vai pastorear um rebanho em sua cultura dura vários anos, por que nós nos achamos no direito de pensar que o missionário pode ir para um campo transcultural sem um profundo e extensivo treinamento?


Ao olhar para o vocacionado como alguém que também carece de preparo, a liderança se coloca nas mãos de Deus para ser a ferramenta de lapidação desse líder em treinamento.


Uma consequência direta desse bom acompanhamento do vocacionado por parte de sua liderança pastoral é a quebra do estereótipo do missionário “supercrente”. Ao olhar para o vocacionado como alguém que também carece de preparo, a liderança se coloca nas mãos de Deus para ser a ferramenta de lapidação desse líder em treinamento. Diferentemente do que muitos acham, não existe gênero, idade nem configuração familiar ideal para o trabalho missionário. Assim como há inúmeros tipos de campos missionários, são inúmeras as possibilidades para diferentes perfis. Alguns campos precisam de jovens solteiros, ao passo que outros carecem de casais com boa vivência conjugal. Uns campos precisam de missionários de carreira em tempo integral enquanto outros só podem ser acessados por bivocacionados com boa formação profissional.

Alguns são chamados para o campo com um histórico de vivência evangélica, filhos de diversas gerações de crentes maduros. Outros, no entanto, são resgatados das drogas, da vida underground com tatuagens e piercings, ou de famílias desajustadas para servir a Deus neste mundo globalizado e pós-moderno igualmente desajustado. A questão maior não está em achar o crente que se encaixe em nossa ideia de missão, mas em deixarmos a graça de Deus fluir por intermédio de nossas vidas, permitindo que Deus use a igreja local como ambiente de preparo e plataforma de lançamento daqueles que são chamados para longe.


A questão maior não está em achar o crente que se encaixe em nossa ideia de missão, mas em deixarmos a graça de Deus fluir por intermédio de nossas vidas, permitindo que Deus use a igreja local como ambiente de preparo e plataforma de lançamento daqueles que são chamados para longe.


Como uma vez disse um amigo: todo preconceito é um pré-conceito, que é um pré-juízo, que é um prejuízo. Como liderança pastoral, nós nos aproximamos daqueles que se entendem chamados por Deus para a obra missionária. Lançamos sobre eles olhos preconceituosos, excluindo das fileiras dos vocacionados, pessoas que achamos novas ou velhas demais, que não apresentam certos traços de personalidade que entendemos que todo missionário deve ter ou alguns dons espirituais que entendemos ser condição básica para o trabalho transcultural. Assim acabamos excluindo por nossa conta pessoas genuinamente vocacionadas e enviando outros sem o devido preparo, por acharmos que já reúnem os requisitos que julgamos “espirituais”. Em vez de nos enchermos do Espírito Santo para nessas decisões, acabamos agindo em seu lugar.

Cristo, nosso modelo para todo tempo e qualquer situação, ensina-nos muito quanto ao preparo do vocacionado. O fato de Jesus ter formado o corpo apostólico de 12 discípulos da forma como o fez leva-nos a crer que sua escolha foi meticulosamente planejada. Ele envia uma mensagem aos seus sucessores ao chamar pessoas com experiências, histórias familiares, posições políticas, profissões, idade e temperamentos tão diversos. Cristo nos comunica que não utiliza parâmetros humanos. Ao gastar tempo com os 12, ensinando-os com seu exemplo como deveriam agir em missão, Cristo deixou para eles e para nós o mais frutífero modelo. Como bem disse Deus a Samuel quando se achou com a vista embotada de preconceitos para a escolha do novo rei: “O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração” (1 Sm 16:7).

Autor: Luís Nacif

Pastor de missões da Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte - MG