O missionário que Deus usa

5 de julho de 2017     0

Certa vez, assistindo a um missionário dar seu testemunho de campo num culto, escutei uma frase que o irmão disse sem perceber a gravidade. Segundo ele, seu temperamento era tão difícil que os irmãos da igreja resolveram enviá-lo para missões transculturais. Mesmo levando em conta que a intenção era dar um tom de humor, a frase carrega e propaga uma boa dose de engano a respeito da figura do missionário.

A liderança da igreja local deve, sem sombra de dúvidas, enxergar o missionário como um líder, pois não se pode pensar em encarar uma tarefa tão importante e árdua sem estar revestido de importantes princípios de liderança. Acontece que esses princípios nem sempre são claros nem bem compreendidos. Isso leva muitos a buscar no missionário aspectos caricatos de liderança em vez de aspectos bíblicos.

Russell Shedd, em seu livro “O líder que Deus usa”, lança mão de um subtítulo significativo: “Resgatando a Liderança Bíblica para a Igreja no Novo Milênio”. Nessa escolha, ele reconhece a necessidade gritante de um resgate da arte de liderar para a geração pós-moderna, sem se basear em princípios seculares e mundanos.

No imaginário de muitos, o missionário deve ser capaz de encarar carne de rato, escorpião no espeto ou dormir em redes, cercado de cobras. A maioria, é claro, nem passa por isso, mas, antes, deve ver sua liderança ser construída sobre o fundamento do caráter de Cristo: uma busca constante pela santidade e uma dependência do poder do Espírito Santo em sua vida que o encha de sabedoria, fé e amor pelos perdidos. Esse fundamento é traduzido em uma disposição de servir aqueles que rejeitam o Caminho e até o perseguem por causa do nome de Jesus.

Uma vez estabelecido o fundamento do caráter, outros valores e atitudes são edificados como paredes na vida do líder, responsabilidades que ele deve chamar para si, sem esperar pela manifestação de outros. Ele deve ser uma pessoa que enxerga além das possibilidades que todos percebem. Essa visão deve ser traduzida em alvos e objetivos que não só ele acredita serem possíveis, mas que motiva outros a abraçarem tal visão. Para o missionário, essa visão se confunde no próprio Reino de Deus. Ele tem os valores do Reino e os comunica aos que o seguem, enchendo os corações da equipe com a identificação com Cristo e motivando-os a alcançar as metas estabelecidas, não para a glória pessoal, mas para engradecer o nome de Jesus.

 


O missionário deve aprender a discernir a linha divisória entre determinação e teimosia, entre flexibilidade e indecisão, entre humildade e timidez, entre ser decisivo e ser independente, entre ser leal e só dizer “sim”.


Se liderar no contexto da própria cultura já é um desafio, exigindo do líder uma estabilidade que é testada em um trabalho de longo prazo, a plantação de igrejas em um contexto transcultural carrega em si um adicional de complicadores que exige do missionário um equilíbrio emocional e espiritual que produz uma influência positiva na equipe e dá tranquilidade em meio às tormentas. O missionário deve aprender a discernir a linha divisória entre determinação e teimosia, entre flexibilidade e indecisão, entre humildade e timidez, entre ser decisivo e ser independente, entre ser leal e só dizer “sim”. Nem sempre é tão fácil e simples adquirir esse discernimento, mas aquele que lidera sob o comando do Espírito Santo tem nele a provisão para alcançar a maturidade e, como diz Paulo aos Coríntios: não mais ser “como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina.” (Ef 4:14).

Por fim, Dr. Shedd é certeiro ao ressaltar que esse estilo de liderança, aliado a atitudes de gratidão e humildade, é o caminho para uma liderança bem-sucedida. Com uma genuína disposição de aprender, reconhecendo que, por mais que tenha caminhando, ainda está longe de saber tudo de que necessita, o missionário se coloca em condições de ser usado por Deus para situações continuamente crescentes. Sua visão e seus objetivos servem ao Reino de Deus, colocando seus alvos e as próprias necessidades diante do Dono da Missão em constante oração.

O desejo de se sentir útil ao Reino e ao Rei é o que preenche o líder cristão. Aí reside sua realização pessoal, quando os aplausos das multidões são trocados por aplausos dos céus, que exigem passos de fé e perseverança, pois, em meio a tribulações, entende que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.” (Rm 8:18).

Um líder assim, contrariando a frase do missionário no início do artigo, é desejado por qualquer igreja, em qualquer lugar. É o líder que se assemelha a Cristo como pastor de uma igreja local, mas também como missionário plantando novas igrejas em culturas das mais distintas. Um missionário assim é um líder que Deus usa.

Autor: Luís Nacif

Pastor de missões da Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte - MG