Oferta missionária

17 de novembro de 2017     0

As palavras têm o poder de transmitir mais do que informações: elas comunicam, dentre várias coisas, sentimentos. Enquanto algumas palavras expressam tranquilidade e constância, outras transmitem uma sensação de impulso e transitoriedade. Dependendo da palavra que usamos, seja numa reflexão pessoal – dentro da mente e do coração -, seja para transmitir uma ideia a outros, o efeito final pode variar consideravelmente.

No meio cristão evangélico, quando falamos do sustento da obra da igreja local, geralmente a imagem do dízimo nos vem à mente. O dízimo é uma contribuição constante, fiel (daí a expressão: “fulano é fiel nos dízimos”), tão estável quanto a renda do dizimista. Quando falamos em dízimos, não pensamos em algo semestral nem anual, mas em uma contribuição, para a maioria esmagadora dos crentes, pelo menos mensal.

Quando algo especial está por acontecer que exige um gasto extra da igreja, mudamos a nomenclatura e usualmente falamos em levantar ofertas para tais ocasiões. Levantam-se ofertas para a construção de um templo, uma reforma, um projeto de evangelismo ou de ação social, só para citar algumas possibilidades. Nesse caso, a palavra “oferta” se encaixa bem, pois evoca um esforço pontual e fora do comum, como nas ofertas do comércio. Não faz sentido nenhum falar em uma oferta permanente.


A expressão tradicionalmente usada para falar no financiamento da obra missionária, especialmente transcultural, é a já conhecida “oferta missionária”. Não há nada de errado com a expressão, por si só, mas o problema surge quando o coeficiente emocional é adicionado.


Entretanto, um fator complicador é inserido quando se fala em missões. A expressão tradicionalmente usada para falar no financiamento da obra missionária, especialmente transcultural, é a já conhecida “oferta missionária”. Não há nada de errado com a expressão, por si só, mas o problema surge quando o coeficiente emocional é adicionado. Se a palavra oferta comunica algo pontual e esporádico, não há nada mais incoerente para associar ao trabalho de evangelização e de plantação de igrejas em um contexto transcultural.

Missionários precisam de anos para se preparar para o trabalho de levar o Evangelho a outras culturas. Necessitam de preparo teológico, missiológico, linguístico e ministerial. É comum vermos missionários investindo dez anos só nessa fase que antecede o envio para o campo transcultural. Se a saída para o campo exige altas somas de recursos financeiros para vistos, passagens, aluguéis e móveis para a nova casa, a manutenção em outro país carrega um desafio extra para o missionário, pois é dificílimo se manter no campo sem um apoio financeiro estável.

Apesar de alguns poucos terem compreendido que ser ofertante para missões é um compromisso tão importante como o do dizimista, no inconsciente da maioria esmagadora dos membros das igrejas evangélicas ainda se pensa nesse tipo de oferta esporádica: depois que dou o dízimo, se sobrar algum dinheiro ou se eu for movido por algum testemunho ou desafio muito tocante, dou uma oferta missionária.

Acontece que o missionário teima em ser uma pessoa normal, que faz refeições diárias, coloca os filhos na escola, paga aluguel, ele se veste e precisa ter recursos para o ministério de evangelismo, discipulado e o que mais seu projeto missionário requerer. Não se faz isso com ofertas esporádicas e variáveis, mas com um sustento estável e constante, que não aparece e desaparece à mercê de um impulso ou de um “sentir no coração”. Alguém poderia até lembrar que a obra missionária se faz pela fé, o que é plena verdade, mas creio de todo o coração que essa fé no Deus Provedor se desdobra em Ele usar a Sua Igreja para cumprir Seus propósitos na Terra. Esse fator nos devolve a responsabilidade de sermos a resposta da fé de nossos missionários.

Em muitos casos, indivíduos e igrejas locais que enviam ofertas para missionários o fazem de forma “nervosa”, por vezes enviando por um período e saltando outros ou então chegando ao final do ano e parando por completo, com o missionário já no campo, sem ao menos avisar com um mínimo de antecedência. Com frequência, famílias inteiras de missionários se veem em apuros financeiros, com um ministério florescente, mas sem condições de se manter com um mínimo de dignidade e, muitas vezes, sem condições de comprar suas passagens de volta. É fundamental lembrarmos que praticamente nenhum visto usado por missionários lhes dá a permissão de buscar um trabalho no país onde estão.


Acontece que o missionário teima em ser uma pessoa normal, que faz refeições diárias, coloca os filhos na escola, paga aluguel, ele se veste e precisa ter recursos para o ministério de evangelismo, discipulado e o que mais seu projeto missionário requerer.


Assim, se levarmos em conta que a palavra “oferta” está carregada de tanta transitoriedade, por que não decidimos passar de ofertantes de missões para mantenedores de missões? Se em nossa cultura o ofertante não o faz de forma constante, por que não ensinamos nossas igrejas a serem mantenedoras de missões transculturais? Dessa forma, é melhor todos darmos uma quantia constante para missões que cabem em nosso orçamento familiar, deixando as ofertas para momentos especiais, do que nos esforçarmos para dar um montante maior de vez em quando.

Da mesma forma, igrejas locais devem abraçar missões transculturais com o mesmo zelo, sem alterar o quadro de missionários toda virada de ano ou quando uma nova liderança assume, ou se um novo projeto de construção de templo vai começar. Como mantenedores, e não só ofertantes, podemos caminhar com os missionários em seus projetos com uma perspectiva de longo prazo, com frutos que são colhidos apenas em etapas mais avançadas dos projetos, bem como dar a suas famílias segurança para fazerem seus planejamentos com mais tranquilidade.

Plantar igrejas é uma jornada que exige perseverança e paciência. Mais desafiador ainda é fazer isso rompendo barreiras culturais, linguísticas e geográficas. Esse é um trabalho que exige manutenção e, por isso e para isso, mantenedores.

É certo que uma simples mudança de vocabulário não será suficiente, mas se essa mudança é fruto de uma nova mentalidade e atitude da liderança da igreja local e de nossos púlpitos, ela pode se refletir na vida das nossas igrejas, soprando tempos novos sobre nossa caminhada como Igreja Brasileira Missionária. Uma mudança de mentalidade não acontece da noite para o dia, mas, com certeza, começa com pequenas atitudes de alguns que vão, num efeito dominó, contagiando outros a sua volta.

Por isso, talvez a primeira pergunta que você pode se fazer é: hoje eu sou um ofertante ou um mantenedor de missões?

Autor: Luís Nacif

Pastor de missões da Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte - MG