O Himalaia e a jornada missionária

17 de julho de 2017     0

Tive a oportunidade de fazer uma pesquisa em certa região do Himalaia, dentro de uma proposta missionária. Parte dessa pesquisa incluía visitar duas comunidades que vivem entre algumas montanhas. Em um percurso de 17 quilômetros, que durou cerca de dez horas, percebi que várias fases daquela escalada poderiam bem exemplificar a jornada missionária.

DO ENCANTAMENTO À EXAUSTÃO

O início da escalada é marcado por um momento de entusiasmo em que tudo é novo, interessante e está para ser descoberto. A vista era linda, o clima, frio, mas agradável, e a montanha projetava-se em sua linda imensidão. Preparei-me com botas especiais, cantis de água, uma pequena mochila, boné e óculos escuros. Após duas horas de escalada, a respiração tornou-se curta e difícil, levando-me a um forte cansaço naqueles 3 mil metros de altitude. Depois de quatro horas, as pernas doíam e tremiam. Em certo momento, pensei que elas não mais responderiam. Nesses momentos, as motivações iniciais parecem ficar distantes. O entusiasmo e o encantamento perdem lugar para o cansaço e a dor.


Nesses momentos, as motivações iniciais parecem ficar distantes. O entusiasmo e o encantamento perdem lugar para o cansaço e a dor.


A jornada missionária segue um percurso semelhante. Após três, cinco ou dez anos no ministério, o ar mais rarefeito e o cansaço do corpo dão sinais de esgotamento. Perde-se o encanto inicial e, escalando devagar, é necessário se lembrar não apenas do rumo da jornada, mas do seu significado. É justamente no significado que novos encantos e entusiasmo – mais profundos e enraizados– começam a se formar. O que segura um missionário em um campo difícil não é o cuidado pastoral, o projeto ministerial nem o envio da igreja. Nem mesmo o sustento financeiro ou o companheirismo dos colegas é suficiente para manter um missionário nessas adversidades.


Aquele que o chamou é maior que as montanhas. Ele é o criador do ar e é quem pode dar força nova para as pernas cansadas.


Tudo tem o seu lugar e importância, mas o que o segura quando chega o dia mau é a sua convicção de chamado. Quando o ar não fornecer mais o oxigênio necessário e as pernas ameaçarem não se mover, lembre-se do chamado de Deus. Isso fará você se agarrar ao significado da caminhada e ter sua alma novamente cheia de esperança. Aquele que o chamou é maior que as montanhas. Ele é o criador do ar e é quem pode dar força nova para as pernas cansadas. Em Deus faz sentido caminhar um pouco mais, crendo que Ele tem planos para cada dia da nossa vida – e todos os Seus planos são planos de amor.

ASPECTOS DE HUMILHAÇÃO

A caminhada missionária, como a escalada de uma montanha para a qual você não está preparado, pode ser um processo de humilhação pessoal. O primeiro aspecto da humilhação é íntimo. São pensamentos de desapontamento ao não conseguir avançar no ritmo desejado ou é o súbito desejo de desistir.

O segundo aspecto é externo e comparativo, quando você olha ao redor e vê que outras pessoas, naquelas mesmas circunstâncias, estão indo bem melhor que você.

Após vários quilômetros, em pleno momento de exaustão, tamanha foi a minha surpresa ao ver que um monge me seguia. Era um senhor de idade avançada que caminhava encurvado com claros problemas esqueléticos. Ao lado dele, um monge mais novo vez por outra o apoiava para que não caísse. O monge mais velho, de barba longa, roupão vermelho e olhar cansado, ultrapassou-me! Olhar para ele, que se distanciava à minha frente, era humilhante.

A jornada missionária tem esses aspectos de humilhação, sejam pessoais e íntimos, sejam em relação a outros que seguem no mesmo caminho e parecem ir mais longe e mais rápido. A impressão de que o Senhor nos colocou nessa caminhada para nos humilhar é verdadeira. Um dos propósitos de Deus é trabalhar em nossa vida, tornando-nos mais conscientes de quem Ele é, mais dependentes da Sua bondade e mais contentes por Sua presença. As humilhações da caminhada ajudam a nos enxergar de forma mais realista, sem estereótipos nem maquiagens.


As humilhações da caminhada ajudam a nos enxergar de forma mais realista, sem estereótipos nem maquiagens.


Precisamos ser relembrados a cada dia de que a jornada não tem como alvo a competição, mas o significado. Todas as coisas cooperam – incluindo um monge idoso ultrapassando você – para que se perceba que o motivo da caminhada é conhecer mais o nosso Deus. É lá atrás, puxando fôlego, que nos desencantamos de nós mesmos e passamos a ter os olhos mais abertos para nos encantar com Ele, que é o verdadeiro Esplendor.

A EXPERIÊNCIA E O ERRO

No início da jornada, tudo parece perigoso e, de fato, muita coisa é. As pedras soltas, o terreno escorregadio, os despenhadeiros implacáveis e a própria limitação física são provas disso. Como se não bastasse, o clima estava incerto. Em início de jornada, a atenção é dobrada, e cada passo, bem calculado. Mas com o passar das horas, e especialmente ao fim do dia, a experiência obtida tende a prover certo relaxamento. Afinal, caminhou-se de forma segura entre as pedras soltas e o terreno molhado por bastante tempo. É justamente esse o momento da queda. A jornada missionária segue um curso semelhante. Os primeiros anos são de muito aprendizado e atenção. Os anos seguintes abrem portas para o amadurecimento e o ensino. Mas é justamente quando se pensa saber o suficiente que o perigo mostra-se mais presente.


Mas é justamente quando se pensa saber o suficiente que o perigo mostra-se mais presente.


Boa parte dos líderes cai durante as épocas de maior experiência de suas vidas. As épocas de maior experiência podem reservar as maiores armadilhas. Quando se pensa ter conseguido dominar a montanha, surge uma pedra solta para a qual não se deu nenhuma importância, e a queda é certa. Precisamos, ao longo de toda a jornada, manter-nos atentos ao essencial, como a vida devocional, o cuidado familiar e a integridade no ministério.

ENTRE A NÉVOA E O ESPLENDOR

Vemos de forma por demais limitada e nossos olhos não enxergam além do que está a nossa frente. Essa é a nossa natureza. Em minha breve caminhada, lembro que duas ou três vezes, nos momentos de maior desânimo, olhei para cima e, por um ou dois segundos, as nuvens se dissiparam deixando escapar, entre a névoa, a visão do vilarejo encravado no alto da montanha – nosso destino. A visão servia de consolo e ânimo, pois sabia que estava no caminho certo e que, em breve, chegaria lá. Da mesma forma, o Senhor, vez por outra, afasta a névoa e nos faz enxergar um pouco do Seu Esplendor: talvez em meio a um momento de louvor, a Palavra que entra profundamente na alma, o sincero abraço amigo ou a convicção de que nosso lar não é aqui.


O Senhor, vez por outra, afasta a névoa e nos faz enxergar um pouco do Seu Esplendor


Muitas vezes, a escalada deixa você com a respiração pesada e a musculatura cansada, talvez exausto ou esgotado. Mas é nesse momento que o Senhor o lembra, entre muitas nuvens e alguns raios de sol, que o significado da caminhada é mais importante que o seu rumo. E o significado é Jesus – o Sol ao meio-dia que arde absoluto sobre as montanhas, mesmo as mais altas e intransponíveis.

Autor: Ronaldo Lidório

Missionário e antropólogo vinculado à APMT/WEC