O justo viverá, ainda que morra

26 de julho de 2017     0

A trágica e angustiante cena do martírio de cristãos divulgada em fevereiro passado tirou o fôlego de todo o mundo. Os jovens, ajoelhados em uma praia no Líbano e prestes a serem executados, levaram-nos a relembrar a promessa de que seríamos perseguidos por nossa fé (Mt 5:11) e que jamais estaríamos sozinhos, pois Jesus estaria conosco (Mt 28:20).


Perante um mundo que convida todos a viver – centrados em si –, Deus nos convida a crer.


A Igreja de Cristo vive dias de forte antagonismo entre a fé e a dúvida, a missão e o apego, a santidade e o pecado, a liberdade e a perseguição. Perante um mundo que convida todos a viver – centrados em si –, Deus nos convida a crer. Entender esse convite, abraçá-lo e proclamá-lo parece ser a nossa missão e o significado de nossas vidas.

O JUSTO VIVERÁ POR FÉ

Paulo afirma que “a justiça de Deus se revela no Evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé.” (Rm 1:17). Em meio ao caos do pecado, ele diz que o justo viverá – e viverá por fé. Esse verso reproduz a mensagem de Habacuque 2:4, que fez essa afirmação 600 anos antes de Cristo. No primeiro capítulo do livro de Habacuque, o profeta denuncia o sofrimento do povo de Deus. Diz que, perante o ataque dos Caldeus, o povo sofre violência, destruição, prisão e humilhação. E pergunta: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? Porque me mostras a iniquidade e me fazes ver a opressão?(…)” (Hc 1:2-3). O profeta pede que Deus mude as circunstâncias, que anule o sofrimento, porém a resposta de Deus é diferente; o Senhor lhe diz que o povo sofrerá ainda mais e que as dores apenas começaram.

Habacuque se desespera e aguarda na torre de vigia. Perante uma crise profundamente desesperadora, ele reconhece algo novo sobre Deus e diz: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é minha fortaleza (…)” (Hc 3:17-19).

O profeta percebe que Deus não perdeu Seu poder mesmo perante o caos. Deus não deixa de ser Deus quando se cala. Habacuque pede que o Senhor mude as circunstâncias, mas Deus lhe convida a crer que Ele é Deus, apesar e além das situações adversas.

No capítulo 3, Habacuque exclama aquilo que iria levar Paulo, após 600 anos, a fundamentar a carta aos Romanos, e Lutero, após 2.100 anos, iniciar a Reforma Protestante: “(…) o justo viverá por fé.” (Hc 2:4).

O CONVITE

Deus não nos convida a ver, mas a crer. Deus nos convida a ter fé e “(…) a fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a Palavra de Cristo.” (Rm 10:17). Não há nada mais poderoso em nossas ações do que proclamarmos a Palavra do Senhor. Ela gera fé e transforma o coração mais duro, a nação mais forte e o homem mais ímpio. Ela transformou a minha e a sua vida. Fará isso também com milhões ou bilhões.


…nossa missão vai além do clamor pela mudança do cenário. Ela envolve ainda proclamar que, mesmo em meio à tragédia, existe Deus, e Ele nos convida a crer.


Vivemos em um país que carece profundamente de paz e justiça. Creio que também seja missão da Igreja clamar ao Senhor para que essas circunstâncias mudem, bem como lutar e participar dessa transformação. Porém, nossa missão vai além do clamor pela mudança do cenário. Ela envolve ainda proclamar que, mesmo em meio à tragédia, existe Deus, e Ele nos convida a crer.


A primeira missão da igreja, portanto, não é a proclamação, mas a fé. Não é viver, mas morrer. Não é sair, mas ser transformada.


Para proclamarmos o convite de Deus, é necessário primeiro experimentá-lo. A primeira missão da igreja, portanto, não é a proclamação, mas a fé. Não é viver, mas morrer. Não é sair, mas ser transformada. Somente por sermos convidados a crer (e crendo), teremos uma mensagem a anunciar. Essa mensagem não é sobre a Igrejanem sobre a sociedade, mas sobre Deus, que forma aIgreja e transforma a sociedade.

À semelhança de Habacuque, nossa tendência é buscar, com maior intensidade, o livramento do sofrimento diário. Deus, porém, vê além da linha do horizonte e promove um livramento eterno. Por vezes, Ele usa o sofrimento temporário para que tenhamos nossa atenção voltada para Sua dependência e para as coisas do Alto. Por um mistério da vida, os maiores aprendizados não ocorrem nas savanas tranquilas, mas nos desconfortáveis desertos. Não devemos buscar o sofrimento, mas compreender que há um propósito maior que a dor. “Ainda que a figueira não floresça (…)”, ela nos ensina que todos os planos de Deus, mesmo em meio ao sofrimento e ao caos, são planos de amor. E que reconhecer isso nos dá uma mensagem santa: há Deus!

O convite do Senhor, “o justo viverá pela fé”, leva-nos a entender que não somos chamados para uma “performance” cristã, mas para crer; não somos convidados para apenas seguir um conjunto de práticas ao longo da vida,mas para crer; não somos enviados apenas para espalhar uma mensagem qualquer, mas para proclamar a mensagem na qual cremos. À medida que cremos,descansamos, pois a fé combate a ansiedade. Somos encorajados, pois sabemos que Ele está conosco e somos despertados para a proclamação, pois a mensagem de Deus torna-se incontida em nós.

O vídeo que mostra a execução dos 21 cristãos Coptas deixa escapar, ao fundo e em meio às ameaças, as últimas palavras dos jovens dizendo: “Senhor Jesus”. Devemos certamente trabalhar, servir, cumprir a missão, proclamar a Palavra, lutar pela justiça e ajudar os oprimidos. Nossa primeira missão, porém, é crer.

Autor: Ronaldo Lidório

Missionário e antropólogo vinculado à APMT/WEC