O molde de uma sociedade pós-moderna

17 de novembro de 2017     0

O pós-modernismo é uma influência marcada pela ruptura com o rigor do modernismo. A principal característica desse movimento é a negação da existência de uma verdade absoluta e do progresso cultural. O filósofo francês Ernest Gellner defende que a pós-modernidade não tem clareza por ser de sua natureza repudiar qualquer clareza (1).

O pluralismo junta-se ao pós-modernismo para negar os dogmas, as verdades absolutas, agregando os conceitos filosóficos de tolerância e antropológicos de diversidade. Lesllie Newbigin esclarece que o pensamento plural resulta especialmente do movimento sociorreligioso dos séculos 18 e 19. Nesse período, passaram a ser aceitas duas diferentes maneiras complementares (e não paralelas) de entender o universo: a partir da Bíblia e a partir da natureza. Nega-se, portanto, a autoridade revelacional (2). 

O misticismo é basicamente a crença na existência de algo além do visível e do compreensível; é a crença no mistério (3). “Mistério” vem do grego mystikos: aquele que era estudioso do invisível e do transcendente. O místico é reconhecido como uma crença exploratória que, no contexto do pós-modernismo pluralista, se propõe a redefinir a verdade espiritual a qual passa a ter três características: tem muitas formas, manifestando-se em todas as religiões e crenças; não é necessariamente racional nem histórica; é alcançada pelo indivíduo quando ele se concentra em sua espiritualidade. Essa crença não necessita de revelação, rejeita qualquer proposta dogmática e se fundamenta na percepção e na experiência do indivíduo.

Dentre as implicações para a missão da Igreja, três merecem destaque:

A primeira delas é a visão de que a sociedade passou a ter da Bíblia. Por ter base relativista, essa visão passou a rejeitar o Livro Sagrado como a revelação e a apresentação da verdade sobre Deus e a humanidade, passando a ser vista como uma das maneiras (e a mais ingênua) de compreender a verdade espiritual. Há cerca de 30 anos, os trabalhos de evangelização utilizavam versículos bíblicos para gerar reflexão em evangélicos e não evangélicos. Atualmente essa prática é vista como simplória.

A segunda implicação é a corrente visão de pecado. Antes da influência pluralista e relativista, a sociedade concebia três expressões de erro: moral, espiritual e cultural. Hoje reconhece apenas uma: o erro moral, como a corrupção, o assassinato e a violência. Com a premissa de não haver verdade absoluta, o erro espiritual tornou-se nulo. O mesmo acontece com o erro cultural, uma vez que toda escolha humana deve ser tolerada.

A terceira implicação se refere a Cristo. A sociedade pluralista e mística aceita Cristo, mas não a sua singularidade. Assim Jesus é um lindo caminho dentre muitos; é uma boa influência dentre muitas. O problema não é a negação de Jesus Cristo, mas da sua singularidade. Em última análise, negar a singularidade cristã é a própria negação do Cristo, porque Ele é singular.

“O pluralismo junta-se ao pós-modernismo para negar os dogmas, as verdades absolutas, agregando os conceitos filosóficos de tolerância e antropológicos de diversidade”

Os resultados diretos na Igreja de Cristo vêm sendo igualmente devastadores à medida que a pós-modernidade, o pluralismo e o misticismo influenciam fortemente os cristãos. Isso tem levado a igreja a exaltar o homem em vez de Deus, a diluir e minimizar a pregação contra o pecado e a desenvolver um perfil triunfalista, seja do triunfo do conhecimento humano, seja da experiência de prosperidade. Essas influências narcisistas, hedônicas e triunfalistas tornam-se os elementos da antimissão, uma vez que crentes e igrejas que olham apenas para si jamais sairão às ruas para estender a mão ao caído e proclamar o Evangelho.

Mateus 28.16-20 nos apresenta os fundamentos de uma igreja que busca não se moldar a este mundo. O primeiro fundamento é a autoridade de Cristo. No verso 18, ao enviar a sua Igreja ao mundo, Jesus o faz afirmando que Ele tem toda a autoridade no céu e na Terra. É na autoridade de Cristo que a Igreja proclama a Verdade sem se deixar corromper. Somente Cristo tem toda a autoridade. Portanto, Ele é singular na história. A Igreja foi revestida da autoridade de Cristo para fazer apenas uma coisa: obedecer à vontade de Deus.

O segundo fundamento é o da transformação, pois no verso 19 ele envia a sua Igreja para fazer discípulos de todas as nações. Isso significa que ela é enviada para fazer parte de uma missão que tem como natureza a transformação de indivíduos. E pressupõe que a mensagem não seja de afirmação do estilo de vida predominante, mas de confronto. Sendo assim, vai haver resistência (Mt 24). É preciso considerar que participar de uma missão de transformação não é para um grupo seleto; é para toda a Igreja, pois todos os salvos em Cristo são chamados por Deus. A missão é também para alguns, dentre toda a Igreja, que são chamados para funções específicas, como lemos em Efésios 4.11: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. O alvo de todos, porém, é o mesmo: edificar o povo de Deus e fazer Cristo conhecido entre as nações. É necessário lembrarmos que estamos envolvidos em uma missão que tem por natureza a transformação de pessoas, e assim é a mensagem a ser pregada. O Evangelho de Deus confronta o homem em sua cultura, sua forma de ver e de organizar a vida e a fé.

O terceiro fundamento é o da doutrina, quando Jesus nos indica a maneira de fazermos discípulos: ensinando-os todas as coisas que Ele nos ordenou (Mt 28.20). Em outras palavras: fazemos discípulos de Cristo quando ensinamos as verdades de Cristo. Esses ensinos exaltam o Senhor, não os homens; centralizam Jesus, não o clero e anunciam Cristo, não a Igreja. Falam dos atributos de Deus, da salvação no Cordeiro e do ministério do Espirito Santo. Eles confrontam, transformam e nos mantêm no caminho da vida, pois a Verdade não é a mensagem da Igreja para a salvação do mundo, mas de Deus para a salvação da Igreja.

O quarto fundamento é o da segurança. Até então, a proposta de Cristo seria essencialmente impossível: enviar um grupo de discípulos para pregar uma mensagem de transformação em todas as nações. O que torna tudo possível está no verso 20 quando Ele diz que estará conosco todos os dias até a consumação dos séculos. É a Sua presença que viabiliza a proclamação do Seu nome em todos os lugares e que nos assegura que, por mais fracos e limitados que sejam a Igreja e seus pregadores, pessoas de todos os povos, todas as tribos, línguas e nações vão se converter ao Cordeiro Jesus. E esse fundamento de segurança é verdadeiro não apenas no cumprimento da missão, mas em nossas vidas pessoais. Em nossa jornada, por mais difícil que seja o caminho, o momento, as frustrações ou os desafios, jamais estaremos sozinhos. Aquele que criou o próprio universo está conosco todos os dias – e isso nos basta (4).

1 Grenz, Stanley. Pós modernismo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. 2 Newbigin, Lesllie. O Evangelho em uma Sociedade Pluralista. Viçosa: Editora Ultimato, 2016. 3 Campos, Heber; Nicodemus, Augustus; Portella, Solano; Souza, Alderi. Fé Cristã e Misticismo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000.4 Palavra proferida no Congresso Vida Nova em 17 de março de 2016.

 

Autor: Ronaldo Lidório

Missionário e antropólogo vinculado à APMT/WEC