Vocacionados

Por Ronaldo Lidório     16 de maio de 2017     0

Uma geração que pode impactar o mundo

A vocação de Deus é pessoal, incontestável e irresistível. Pessoal, pois Ele lança no coração de seus filhos uma intransferível e profunda convicção de chamado e propósito – a busca pela certeza de estar no lugar certo, na hora certa e fazendo o que realiza os planos do Pai. Incontestável, pois é uma convocação, e Ele a faz de forma clara. Na Palavra, a voz de Deus é comparada à “de muitas águas” (Ap 1.15) e ao “trovão” (Is 33.3). Ele sempre se faz ouvir. Irresistível, pois quando Deus chama, somos tomados pelo desejo de segui-lo – e tudo o mais perde o sentido.

VOCACIONADOS PARA DEUS
Chamado e vocação são termos similares na Palavra de Deus e derivam da expressão kaleo – que indica chamar ou convocar. Na Palavra de Deus, todos os discípulos de Cristo são chamados – convocados – para segui-lo, e em todo o Novo Testamento vemos que Deus chama para muitos propósitos. Ele chama para a salvação (2 Pe 1.10), para a liberdade (Gl 5.13), para sermos de Jesus Cristo (Rm 16.25-26) e para a ceia das bodas do Cordeiro (Ap 19.9). Todo chamado se dá segundo o seu propósito (Rm 8.28), e somos encorajados a permanecer firmes (1 Co 7.20), andar de forma digna da nossa vocação (Ef 4.1) e vivê-la junto a outros igualmente chamados em Cristo (Ef 4.4).

O chamado de Deus não é uma prerrogativa do Novo Testamento. Deus, ao longo da história, chamou seu povo para o seu propósito. Israel é chamado para ser bênção entre as nações (Gn 12.2) e para anunciar a salvação e a glória do Senhor (Sl 96.3).

Em Isaías 43, o Senhor afirma ter chamado o seu povo (v. 1), promete guardá-lo em toda a jornada (v. 2) e deseja usá-lo para o cumprimento dos seus propósitos (v. 7). Todos os redimidos são, portanto, chamados por Deus e para Deus. A origem do chamado não é o homem ou a igreja, mas sim Deus. E a finalidade do chamado não é puramente servir aos homens ou à igreja, mas a Deus. Pedro deixa claro o chamado da Igreja quando afirma que “vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2.9). Estamos em Cristo porque Ele nos chamou.

Assim, a Igreja de Cristo é toda chamada (vocacionada, convocada) para a salvação, santidade, comunhão e missão. Nesse sentido, todos os redimidos em Cristo são vocacionados. Não existimos de forma aleatória e despropositada. Fomos salvos em Cristo para fazer diferença – sendo sal e luz – e cumprir o chamado do Pai.   E, entre todas as vocações, a maior é glorificar a Deus (Rm 16.25-27).

Se olharmos a Palavra de forma ampla, possivelmente as convocações mais enfáticas sejam três: amar a Deus, amar ao próximo e fazer discípulos. Se você é discípulo de Cristo, já está convocado a servi-lo com tudo o que é e tudo o que tem – suas forças, competência, oportunidades, emprego, inteligência, relacionamentos, finanças e família. Não é preciso ser chamado ao pastorado ou enviado como missionário para que isso aconteça. Não é preciso ter títulos ou posição de liderança em alguma igreja.

O sinal de que Deus tem um propósito para a sua vida é tê-lo redimido em Cristo Jesus. Portanto, se você ama e segue a Cristo, você é vocacionado para os propósitos de Deus.

VOCACIONADOS POR DEUS PARA A MISSÃO
Ao longo da história, Deus também chama indivíduos para funções específicas. Ou seja, o fato de todos os redimidos serem chamados para o propósito de Deus não isenta o Senhor de chamar alguns para funções específicas.

Ele chamou Abraão para sair de sua terra e ser o pai de uma grande nação. Chamou Moisés para conduzir o povo por quatro décadas de provações e bênçãos. Chamou Josué para conquistar uma terra por Ele prometida. Chamou Davi para ser rei sobre o seu povo. Chamou Samuel quando ainda era menino para servir ao Altíssimo. Chamou Jeremias para ser profeta em tempos de crise. Chamou Jonas para ir aonde não desejava. Chamou Maria para ser a mãe de Jesus, o Salvador. Chamou os discípulos para deixarem redes e trabalho e se tornarem pescadores de homens. Chamou Barnabé e Paulo para evangelizar os gentios. Chamou Timóteo para pregar a Palavra.

É clara na Palavra de Deus a vocação ao ministério para desempenho de uma função específica no Reino. Entendo que esse ministério se baseia nos dons que Cristo distribuiu em sua Igreja para que ela seja edificada e cumpra a sua missão. Escrevendo aos romanos, Paulo se apresenta como “servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus” (Rm 1.1), expressando que é servo de Cristo, porém com um chamado ministerial específico: ser apóstolo. Ele afirma ser “servo” doulos –, escravo comprado pelo sangue do Cordeiro, liberto das cadeias do pecado e da morte e, apesar de livre, cativo pelo Senhor que o libertou. Afirma também ter sido chamado para ser “apóstolo”, demonstrando que alguns servos podem ser chamados ao ministério, porém não há verdadeiros ministros que não sejam primeiramente servos.

De acordo com Efésios 4.11, entendo que o Senhor Jesus concedeu dons a alguns para o desempenho de funções específicas: serem apóstolos, profetas, pastores, evangelistas e mestres. É importante lembrar que a distribuição desses dons ocorre “para que o corpo de Cristo seja edificado” (4.12). Apóstolos, no texto, se referem àqueles que foram convocados diretamente por Cristo. John Stott nos lembra que a convocação ao apostolado feita por Cristo cessou no primeiro século quando Ele chamou os doze e Paulo. Porém, no sentido do envio (apostelo – enviar), toda a Igreja é apostólica, pois foi enviada por Cristo ao mundo. Para John Knox, os apóstolos possuíam um perfil específico, pois eram as pedrinhas lançadas bem longe, onde a Igreja e o evangelho ainda não haviam chegado. Eram os pioneiros de Cristo.

É interessante perceber que os apóstolos chamados por Cristo no primeiro século alcançaram alguns dos confins da Terra. Mateus foi para a Etiópia (África), André alcançou os citas (na região da antiga URSS), Bartolomeu atingiu a Arábia e Tomé levou o evangelho à Índia. Paulo foi testemunha na Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia. Profetas (do grego profetes), no texto, indicam aqueles que falam da parte de Deus e comunicam a verdade divina. Entendo que hoje consideraríamos profetas aqueles que expõem a Palavra de Deus. A exposição bíblica feita no temor e autoridade do Senhor tem o poder de confrontar e transformar vidas.

Os maiores avivamentos da história se originaram de exposições bíblicas feitas por cristãos apaixonados por Jesus, desejosos de profunda transformação e fiéis às Escrituras. Evangelistas (do grego eyaggelistes) referiam-se tanto aos que tinham grande facilidade para comunicar o evangelho de Cristo quanto aos que moldavam outros com a forma do evangelho, ou seja, os discipuladores. Apesar de todos os redimidos em Cristo serem chamados por Deus para a evangelização, compreende-se que há alguns que o fazem com maior desenvoltura ou facilidade, comunicando de forma clara e acessível o evangelho aos que ainda não abraçaram o Cordeiro de Deus.

“Discernir para qual ministério Deus o chamou é uma caminhada. É preciso entender que Deus, geralmente, mostra-nos apenas o próximo passo”

Pastores (do grego poimenos) eram os que amavam e cuidavam do rebanho de Cristo. Trata-se daqueles que são usados por Deus para juntar, alimentar e cuidar do  povo do Senhor – e se sentem realizados com isso. Diversos exegetas enxergam na expressão “pastores e mestres” apenas uma função: pastores-mestres. Para efeito de especificidade vocacional, exponho separadamente.

Mestres (de didaskalos) eram os que ensinavam a Palavra de forma clara e transformadora. Seus ministérios não eram definidos pela quantidade de ouvintes ou condições de trabalho, mas puramente pela rica experiência de abrir a Palavra e  ensiná-la. O compromisso do mestre é a Palavra.

Ao ser chamado por Deus para um ministério específico de acordo com o dom que este lhe dá, não se angustie se não souber para onde será enviado. Seja do outro lado da rua ou do outro lado do mundo, Deus, que o vocacionou, também o sustentará.

VOCACIONADOS POR DEUS – ONDE O EVANGELHO AINDA NÃO CHEGOU
A Palavra está repleta de ênfases transculturais motivadas pelo desejo de Deus em ser conhecido e adorado por todos os povos da Terra. É importante, portanto, entendermos a relação entre esse propósito de Deus e o envio missionário. Nos Salmos, encontramos textos que expressam o desejo de Deus de ser adorado além-fronteiras, por todos os povos: “Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas” (Sl 96.3); “O Senhor fez notória a sua salvação; manifestou a sua justiça perante os olhos das nações” (Sl 98.2); “Reina o Senhor; tremam os povos… Celebrem eles o teu nome grande e tremendo, porque é Santo” (Sl 99.1,3); “Render-te-ei graças entre os povos… Cantar-te-ei louvores entre as nações” (Sl 108.3); “Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, louvai todos os povos” (Sl 117.1). O chamado de Paulo era para ser apóstolo e sua prioridade ministerial se encontra “não onde Cristo já fora anunciado” (Rm 15.20), o que pode ser perto ou longe. Expressa, muitíssimo bem, o diálogo entre o desejo de Deus de ser conhecido entre todas as nações e o envio de servos para que o Nome de Jesus seja anunciado por toda parte.

O perfil transcultural do ministério exige um preparo específico. É certo que Deus pode e tem usado pessoas com pouquíssimo preparo, mas em geral a caminhada é mais árdua e longa. Lidar com outras línguas, diferentes visões de mundo e contextos sociais distintos impõe sobre o missionário uma forte demanda de adaptação pessoal e necessidade de transpor barreiras comunicacionais. A Dra. Frances Popovich dizia  que “Deus usa tudo aquilo que aprendemos”, portanto é preciso aprender tudo o que for possível e preparar-se bem para que o Nome de Deus seja espalhado por todas as nações.

Compreender que Deus lhe deu um dom chamando-o para o ministério é uma certeza que vem ao coração de forma pessoal e irrevogável. Discernir para qual ministério Deus o chamou é uma caminhada. É preciso entender que Deus, geralmente, mostra-nos apenas o próximo passo. Se você tem convicção de que Deus o chamou para o ministério, busque no Senhor discernimento para o próximo passo, ofereça-se para cooperar nas necessidades ministeriais em sua igreja local e exponha-se aos contextos de trabalho para os quais você se sente dirigido. Que o Senhor lhe dê discernimento para saber o próximo passo e perseverança para não parar ao longo do caminho.

 

Autor: Ronaldo Lidório

Missionário e antropólogo vinculado à APMT/WEC
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