A Arte e o Deus Invisível

18 de agosto de 2017     0

Cremos num Deus invisível (1Tm 1.17), mas nosso cérebro exige formas o tempo todo. Não resistimos em olhar as nuvens sem transformá-las em coisas ou animais. Como lidar com um Deus invisível se todos os esforços cognitivos não se contentam com a abstração? A própria Bíblia nos fornece várias representações e manifestações figurativas para Deus: Leão, boi e águia na complexa descrição em Ezequiel 1; cordeiro; sarça ardente em chamas; ancião com cabelos brancos como a lã; olhos de fogo; pés de bronze reluzente…

Temos um dilema histórico que pode nos ajudar a compreender algo sobre as influências na nossa educação cristã quanto à imaginação, a questão do uso das artes plásticas dentro da igreja. Em Roma, por volta do século VI, líderes religiosos se desentendiam pelo uso ou não de imagens dentro da igreja (neste caso não somente imagens de santos como pensamos hoje, mas qualquer tipo de decoração).


Temos um dilema histórico que pode nos ajudar a compreender algo sobre as influências na nossa educação cristã quanto à imaginação, a questão do uso das artes plásticas dentro da igreja.


De um lado havia o receio do que poderia se tornar a relação das pessoas com as imagens, em adorá-las como deuses por causa dos relatos no Antigo Testamento e ao observar a relação dos pagãos com seus deuses; já outros líderes defendiam que as imagens teriam um papel fundamental e didático para melhor compreensão das escrituras pelos fiéis, que poderiam ser impulsionados a uma imaginação mais elevada a qual serviria como veículo transportador até a transcendência, considerando que as pessoas mais simples não sabiam ler. Os protestantes acabaram se aproximando da iconoclastia e o resultado foi uma pobreza estética que inibe a imaginação. Fomos privados de um aprendizado simbólico que produziria em nós um repertório riquíssimo de significados. Por causa desta privação, nos tornamos pouco imaginativos e muito pragmáticos; e, portanto, tão pouco ligados à ideia de eternidade (pois pensar na eternidade requer materiais imaginários e simbólicos complexos).

De uma forma ou de outra, a ideia de um Deus invisível não é a de um Deus e uma habitação imaterial. A própria ideia de céu ficou empobrecida pela incorporeidade durante anos no imaginário evangélico, contradizendo a idéia bíblica de novos céus e nova terra. A Bíblia é rica no trato estético: vide as descrições do templo de Salomão, textos poéticos, o teor de dramaticidade nas orações dos homens a Deus, a musicalidade, as narrativas criativas de Jesus nas parábolas, dentre outros elementos, destacam a configuração criativa da palavra de Deus.


Deus se importa com as manifestações estéticas. O século XII refletiu maestria nos empreendimentos arquitetônicos das igrejas altas com seus vitrais, o século XV foi o ápice da habilidade técnica dos artistas na Europa. Obviamente que, nada no mundo, nem a melhor obra de arte, nem a mais bela paisagem pode ser comparada a Deus, afinal, ele é o criador de todas elas. Deus é invisível porque nossos olhos ainda não suportariam tanto esplendor


Até as instruções que Deus dava aos profetas são de um singular teor artístico, como por exemplo, quando Ezequiel representou o cerco de Jerusalém utilizando materiais ordinários, um tijolo uma panela de ferro, e se deitava ao lado desta “maquete” estabelecendo uma relação corporal com o objeto, semelhante ao que se faz na performance¹ na Arte Contemporânea. E vemos ao longo da Bíblia muitas descrições estéticas que se assemelham com o que consideramos arte ao longo da história.

Deus se importa com as manifestações estéticas. O século XII refletiu maestria nos empreendimentos arquitetônicos das igrejas altas com seus vitrais, o século XV foi o ápice da habilidade técnica dos artistas na Europa. Obviamente que, nada no mundo, nem a melhor obra de arte, nem a mais bela paisagem pode ser comparada a Deus, afinal, ele é o criador de todas elas. Deus é invisível porque nossos olhos ainda não suportariam tanto esplendor; “nem olhos viram… nem ouvidos ouviram… (1Co 2.9). Toda beleza deste mundo e a obra mais sublime de um artista aponta para essa realidade, a imagem de Deus ainda é materialmente inalcançável, mas tenho a convicção que Ele incentiva os artistas a fornecerem todo o tempo um acervo de formas elaboradas que reforçam a promessa no coração humano. Precisamos ver nas artes essa lacuna, pois ela dá sentido ao invisível e amplia a possibilidade de imaginar, utilizando os recursos que temos dentro do mundo, que já são tão ricos , para que possamos vislumbrar o que ainda não é possível.

¹Performance: Gênero artístico que surge nos Estados Unidos na segunda metade do século XX , com características específicas, onde se utilizava o corpo e o movimento na obra, podendo haver ou não objetos adicionais.

Autor: Rafaela Senfft

Artista plástica, é professora de História da Arte Ocidental no curso de extensão da Guignard/UEMG. Membro de CIVA - Christian in Visual Arts (www.civa.org). Artista expositora na Saatchi Gallery, Santa Monica - Califórnia