CONTAI-ME O SONHO

4 de setembro de 2017     0

Os famosos “Heróis da Fé” sempre me intrigaram. Este título sempre me deu calafrios pois, quando superficialmente comparado a eles, entrava em um processo contínuo de frustração, decepção e medo.

Aliás, nós artistas temos estas palavras circulando nossos corações e mentes de vez em sempre. Ontem mesmo conversava com uma grande amiga e atriz, em plena ascensão em sua carreira, que me compartilhava o quanto sofre e fica em “pânico” algumas vezes que entra em um set de gravação (mesmo tendo experiência de sobra para isso). Qualquer semelhança não é mera coincidência. Mas isso são outros quinhentos…

O mais interessante (e apaixonante) da Bíblia é que ela é um livro de pessoas comuns, longe de serem heróis e, em alguns momentos, sem tanta fé assim, o que se aproxima muito da realidade de quem eu sou.


A vida de José nos mostra algo maravilhoso quando queremos entender qual é a nossa missão em um meio tão lindo, louco, intrigante e profundo que permeia a arte. Deus entregou a ele um presente muito espiritual e, porque não, artístico: sonhos!


Há quem diga que foi um presente de grego, pois diante de tudo que ele sofreu por causa de seus sonhos, muitos talvez preferissem não sonhar. Nós não somos assim? Ou será que só eu sou frequentemente chamado com expressões contemporâneas parafraseando a forma que seus irmãos lhe chamavam: “Lá vem o tal sonhador” (Gn 37.19)? O fato é que, querendo ou não, este presente o acompanhou por toda a sua vida. E o colocou em situações nada fáceis. Em um dos momentos mais amargos de sua vida – encarando as celas de uma prisão – uma nova crise se instaura no coração de José.

Este presente (ou será pesadelo!?) volta a aparecer em sua história! UM SONHO!!! Desta vez não dele, mas bem perto. Alguém sonha e não sabe o que significa. Um sonho já é, normalmente, estranho. Um sonho sem explicação é pavoroso. Ainda mais aqueles que não saem de nossas cabeças. Este era o caso, pois a Bíblia diz que o semblante dos prisioneiros mudou, e mudou para pior (Gn 40).

Tento imaginar minha reação na pele de José e dou graças a Deus por não estar lá. Acho que, diante de tudo o que sonhos o causaram, eu iria querer distância deles! É aí que a missão no coração de um artista deve florescer.


Afinal, nossa missão não é fazer arte, mas como uma linda obra de arte de nosso Criador, exalar a essência de Seus projetos e intenções ao nos criar colocando Sua imensa glória diante de todas as pessoas. Em outras palavras exalar o bom perfume Dele.


O livro de José, como uma obra que explica, que seduz, que intriga, que instiga, que responde, vem ao prisioneiro atormentado e coloca Deus no meio do cenário. Muitas vezes nós artistas estamos bem próximos de situações como estas. Arte é um sonho, viver dela no Brasil então…

A Expressão artística traz sonhos à existência. Sonhos muito fáceis de ver, sonhos nem tão simples assim e sonhos completamente atormentadores e escravizadores. Quando olhamos para as artes visuais, por exemplo, isso fica bem claro. Algumas são de fácil interpretação, outras, abstratas ou não, são ambíguas e as vezes complicadíssimas de se entender.

Tenho um quadro em minha casa dado por um grande amigo e talentosíssimo pintor que é motivo de discussão (e algumas piadas) entre meus amigos pois, até hoje, apenas um conseguiu chegar perto da ideia real de interpretação do mesmo. Nosso papel e missão é deixar Deus ser Deus em momentos como estes. Estamos bem perto deste contexto.

Pessoas cruzam as nossas vidas todo o tempo. Sonhadores de todas as formas. Alguns com vidas “aparentemente” simples e bem traçadas. Outros com questões complexas, sonhos (ou pesadelos) que os atormentam e os escravizam. De uma forma ou de outra, devemos sempre nos aproximar, amar e fazer esta pergunta: “porventura não pertencem a Deus as interpretações? Contai-me o sonho” (Gn 40:8). Esta expressão nos mostra tanta coisa: Amor, compaixão, afeto, preocupação, vontade de ajudar, e por aí vai.

Para alguns poderia ser apenas um sonhador encrencado ajudando um encrenqueiro sonhador. Seria um bom tema para um final tragicômico não fosse o ingrediente principal desta pergunta: Porventura não pertencem a Deus as interpretações?

Me lembro até hoje o dia que uma pessoa entrou em nossa galeria de arte em Paris mostrando o que seria seu “projeto de vida”. Algo obscuro, depressivo, complicado e triste. De difícil compreensão e até mesmo absorção no mercado. Nossa primeira atitude poderia ser como a de muitos: o famoso tapinha nas costas, uma frase hipócrita entre os dentes para não decepcionar o pobre sonhador, e vida que segue. Mas a missão de José e o exemplo de nosso Senhor não nos permitem encerrar a história assim.

Mesmo sabendo de suas limitações, esta pergunta foi feita e uma amizade foi estabelecida. Descobrimos então que por traz daquela velha casca de pintor frustrado e sem talento, havia um coração clamando por interpretações eternas. Anos depois, o caminho ainda está muito longe de se encerrar, mas podemos ver claramente uma caminhada de busca por Deus. Um pobre sonhador que entrou em nossos caminhos para nos mostrar sua vida agora conhece A VIDA. Não seria isso o tal discipulado tão falado e massacrado em nossos dias?

Nossa missão é entender: o que Deus nos deu não é nosso. É Dele e nos foi dado com um propósito que transcende em muito tudo aquilo que nossos olhos viram e ouvidos ouviram. Quem poderia dizer que, dentro de uma prisão, uma cena hollywoodiana dessas como a de José poderia tomar lugar?

Minha sugestão para você é: aproxime-se, ame, se importe, tenha compaixão, sinta a dor; e nunca, nunca, nunca deixe de perguntar: “porventura não pertencem a Deus as interpretações? Contai-me o sonho”.

Autor: Gustavo Faleiro

Missionário líder do Missão e Eu e um dos idealizadores do ministério La Fonderie, contendo uma galeria de arte localizada no centro de Paris.