Há lugar real para a arte na vida cristã?

Por Lorena Chaves     16 de maio de 2017     0

A criatividade e a expressão da glória de Deus

Em pouco menos de um ano após minha conversão a Cristo, eu voltei a compor. Com grande entusiasmo compunha de todo o meu coração canções que mostravam minha fascinação e contemplação por tudo o que Ele é e faz. Entretanto, quando mostrava minhas letras para alguns amigos e líderes, boa parte deles hesitava e alguns questionaram a razão pela qual eu não usava o nome de Deus e suas variações nas minhas composições, afinal, como artista e cristã, era esperado que eu desempenhasse o papel de levar o evangelho através das minhas músicas.

Por vezes, passava horas pensando se eu estaria mesmo errada por escrever daquele jeito. Eu era nova na fé e imatura no âmbito espiritual, assim as dúvidas atormentavam a minha mente. Será que as minhas canções e a minha forma de expressar e comunicar o evangelho não serviam mesmo para nada? Nem ao menos para levar conforto às pessoas, um alento ou até um desconforto que os levasse à refletir a própria conduta e a se voltarem para Deus?

Cheguei até a cogitar a hipótese de desistir da música e me tornar missionária em algum país em desenvolvimento. Pensei que esta seria a atividade mais espiritual que eu poderia exercer: cuidar dos pobres. Talvez Deus me quisesse lá. Afinal, o que poderia haver em um palco com luzes cujas letras discorriam sobre a natureza, cotidiano e amor? Haveria lugar real para a arte na vida cristã?

Li, há algum tempo em um artigo riquíssimo de uma artista plástica – Rafaela Senfft, que: “A arte, quando pautada numa visão de mundo correta dentro do relacionamento com Deus, é capaz de comunicar coisas grandiosas, desvendar tesouros escondidos. Mas é importante que o artista vivencie experiências estéticas e busque conhecimento para que, com um olhar permeado da graça de Cristo, possa assumir uma produção”.

Nesse sentido, Francis Shaeffer, em seu livro “A Arte e a Bíblia” faz o seguinte comentário: “Como cristãos evangélicos, tendemos dar pouca importância à arte. Consideramos os outros aspectos da vida humana muito mais importantes. E que apesar do senhorio de Cristo, limitamos a sua atuação à uma pequena área da realidade”. Ao que parece não conseguimos enxergar que Deus redimiu o homem por inteiro!

Percebo ser assim que lidamos com a arte: “demonizamos” a nossa cultura, deixamos de lado o teatro, a dança, as artes plásticas, e validamos apenas as músicas litúrgicas. Com o passar do tempo, pela Graça de Deus, comecei a compreender que a verdadeira espiritualidade está no senhorio de Cristo sobre o homem como um todo. E todo, significa TODO mesmo! Nessa perspectiva, entendo que o evangelho transforma o homem por inteiro, isso inclui nosso intelecto e nossa criatividade. O cristão deve usar a arte para glorificar a Deus, não simplesmente como uma propaganda evangelística, mas como algo belo para a glória de Deus.

A arte tem valor em si mesma, é também algo a ser apreciado, considere as obras de arte no tabernáculo e no templo que estavam ali puramente pela beleza, não como algo sagrado. A beleza tem seu lugar na adoração a Deus e não é difícil entender, basta olharmos para a sua criação, cuja beleza é visível e verdadeira. Com a verdade vem a beleza, e com a beleza a liberdade diante de Deus.

Oro para que não ocorra uma sabotagem da criatividade e da imaginação que o Senhor nos concede para Sua glória. Sonho que cada artista possa viver sua singular liberdade de criar para a glória de Deus. Seja sua expressão qual for e onde for!

Viver Cristo por inteiro nos levaria a um viver mais leve; nos tornaria mais gratos, menos legalistas, mais amorosos, mais contemplativos e cheios de compaixão. Viveríamos uma gloriosa sinfonia da expressão do nosso Deus aqui na terra. Que o Senhor nos faça abundar em sua graça! Cristo em nós, esperança da glória. Amém!

Autor: Lorena Chaves

Cantora e compositora, mora em Belo Horizonte - MG com o esposo Thiago Thal
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